segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

No escuro.

   
   Eu gritei até que minha voz começasse a sair. Abafada num sussurro, muito esforço para pouco resultado, mais agonia e desespero do que voz, mas saiu. Eu achei que fosse morrer antes que meus lábios se mexessem.
   Os olhos saltavam as órbitas e não enxergavam aquilo que mais queriam ver. Respiração controlada pelo medo, presa no susto.
   O corpo recém congelado, duro. Um cadáver vivo. Arrepiado e curioso com a sensação de ser tocado por algo que não se pode tocar.
   
   Não era nada tão anormal. Não para mim. Mas a surpresa e o horror se renovam e são inevitáveis a cada visita inesperada. Convidados que aparecem sem serem chamados. Entram sem bater, tem o cuidado de não acordarem ninguém além de mim e de fazerem silêncio. E me manter em silêncio.
   
   O corpo congela e segundos depois, ele deixa de estar deitado ao meu lado para se deitar sobre mim. O peso de seu corpo pressionado sobre o meu, causa um pavor que eu descreveria como "a melhor sensação do mundo".
   Uma respiração. Quente, profunda. Forte, desde o calor ao barulho que continha. A mais longa que eu já presenciei. Cada segundo que ela levou, foi o suficiente para que ficasse eternizada no meu corpo e na minha mente. Esse é seu reflexo na pele de alguém que acreditava presenciar um encontro com a morte. O último piscar de olhos. A última respiração. A última batida do coração dentro do peito. A última sensação. 
   Era o reflexo sobre a minha pele.
   
   Uma pequena movimentação das pernas sobre as minhas. Enquanto tentava gritar de alguma forma que alguém além de mim pudesse me ouvir, eu só conseguia pensar se algo visível poderia ser mais real que aquilo e aquele momento. Não, não poderia.
   Talvez nem tudo estivesse perdido. Minha boca se abriu ligeiramente e deu tempo a um sussurro chamando por meu pai. A musculatura estava pesada. Parecia ter algo grudado, algo muito forte puxando-a, que a fez se fechar novamente, contra minha vontade. O jeito era esperar e assistir.
   
   Um beijo no pescoço. Uma mão na coxa direita. Se grudou com força e deslizou até a proximidade do joelho. A surpresa e o medo novamente brigavam por um lugar no meu peito, que estava pequeno demais para abrigar mais do que uma emoção ao mesmo tempo.
    O clima do lugar se dispersa, perde o impacto. O peso some, o corpo amolece. O visitante, satisfeito, se vai. Mas o medo e a curiosidade permanecem, mesmo quando estou sentada na cama, no meio da madrugada, segundos após o ocorrido, perguntando-me se ele volta a me visitar mais uma vez. Essa não foi a primeira, e eu desejo que não seja a última.
   A cada uma de suas visitas, o medo que ele me proporciona é ainda mais viciante. É da loucura que ele grava sobre mim que minha mente se alimenta.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ouça o que lhe digo


"Olá, tudo bem? O que mais te incomoda?"

   A falta de sexo, minha querida. As prostitutas por ai não se limpam corretamente, e você sabe como é, né? Esses dias eu estava conversando com meu espantalho, e definitivamente, ele concorda que este mundo está podre.
   Você tem chá, minha querida? Há tempos que não tomo um bom chá. Desconfio que o dono da pensão ao lado de casa venha tentando me envenenar. Dias atrás ele palitava os dentes, arrancando deles as sobras da coxas da mulher que se enroscaram. Os seios ele comerá hoje, ouça o que lhe digo.
   Meu cobertor sussurrou durante essa madrugada, contando-me que alguém ainda me observa toda noite. Da janela do meu quarto posso ver sua face pútrida e sombria. Ele tem estado ali dia após dia, esperando o momento certo para jogar suas larvas sob meu corpo adormecido e roubar meus rins. Eu tenho certeza do que estou falando. Eu sei, eu sempre sei...
   A vizinha da esquerda faz amor com espíritos. Ouço seus gemidos a noite inteira, e tenho que lhe dizer, desconfio que não seja nada mal, nada mal...
   Ouço a respiração quente e amarga deles, e eu sei que são eles que estão transando nos tubos de ventilação de casa quando o relógio caminha através madrugada. Malditos sejam!
   Não tenho saído muito. Vejo mãos saindo de dentro dos cestos de lixo,  e as pessoas na rua soltam gargalhadas terríveis enquanto me observam. Eles riem de mim, eu vejo. Escute o que lhe digo, eles estão ficando loucos.
   Mas tudo bem, afinal, cartas bombas chegam no meu correio o tempo todo sem explodir, o que me dá uma grande esperança de que a vida melhore.



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Este texto surgiu de uma conversa no msn, a respeito da maneira como psicólogos te abordam em seus consultórios.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Mais Querido

   O tempo foi cruel conosco, meu querido. Ou talvez, nós tenhamos sido cruéis demais com nós mesmos.
  
  Está frio e a fumaça que sai do meu café, enquanto observo as pessoas na rua, sentada na lanchonete da esquina, tem o seu gosto. E o sorriso da garçonete gostosona que serve o velho pervertido sentado na mesa do outro lado, tem o mesmo timbre do seu sorriso forjado, de palavras forjadas, de amores forjados, esperanças forjadas e passos forjados. Até a sua farsa é meramente forjada.
  Mas você foi o mais querido.


  E sentando no banco da praça, onde eu disse que você cheirava à amores velhos cheios de mentiras atraentes, eu encontrei uma erva daninha. De um verde levemente desbotado e textura que exala à paixões turbulentas com duração de um olhar. Daquelas que duram a eternidade durante um segundo,  selvagens e recíprocas, que te tomam o fôlego e devolvem em uma respiração. Engraçado, você está até nas plantas. Nas mais indesejadas, mas está.
  Porque você foi o mais querido 

  E lendo aquele velho poema cansativo, cheio de desejos sem vontade, com todas as suas palavrinhas difíceis mal colocadas e seu cheiro de livro empoeirado com o sabor de chocolate quente, na manhãzinha fria e entediada de sábado, que nem sendo reinventado chegaria aos pés do sentimento que tenta domesticar, eu te enxergo do outro lado da rua, com seus olhos marejando docilidade. Mas só eu conheço a tua impaciência e incerteza, que não estão aptos ao bom amor.
  E se tornou o mais querido. 


  A xícara pequena, cheia de florzinhas detalhadamente pintadas, na qual pousava teu café nas manhãs que pedem um bom abraço e cobertores, está sobre a mesa, com o chá que tu detestava e que deveria estagnar ali, porque eu também o odeio. Mas eu o bebo. Não, eu bebo você. É a sua amargura que dança pela minha garganta, fazendo a fervura borbulhar no sangue. Não, te fazendo borbulhar na minha pele. E revirar no meu estômago. E anestesiar a minha mente. E sem calar a minha sede,  queimar a minha língua. E me queimar, com minha própria loucura.
 Mas você foi... você foi...
 Mas você foi o mais querido.
 

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Insanidade

  Ouço vozes saindo dos livros famigerados de romance
  O tique-taque do relógio não parece mais o mesmo
  Um prelúdio da morte...
  Observo a fumaça do meu cigarro
  se transformar em névoa pela casa,
  sussurrando paranóias.

  O corvo na janela vem comer-me a carne
  O gato espera para lamber-me os ossos
  As almas pela casa, gritam meus segredos
  Um cântico para a loucura!

17/06/2010



- Essa merdinha foi feita num exercício da aula de português :s