quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Mais Querido

   O tempo foi cruel conosco, meu querido. Ou talvez, nós tenhamos sido cruéis demais com nós mesmos.
  
  Está frio e a fumaça que sai do meu café, enquanto observo as pessoas na rua, sentada na lanchonete da esquina, tem o seu gosto. E o sorriso da garçonete gostosona que serve o velho pervertido sentado na mesa do outro lado, tem o mesmo timbre do seu sorriso forjado, de palavras forjadas, de amores forjados, esperanças forjadas e passos forjados. Até a sua farsa é meramente forjada.
  Mas você foi o mais querido.


  E sentando no banco da praça, onde eu disse que você cheirava à amores velhos cheios de mentiras atraentes, eu encontrei uma erva daninha. De um verde levemente desbotado e textura que exala à paixões turbulentas com duração de um olhar. Daquelas que duram a eternidade durante um segundo,  selvagens e recíprocas, que te tomam o fôlego e devolvem em uma respiração. Engraçado, você está até nas plantas. Nas mais indesejadas, mas está.
  Porque você foi o mais querido 

  E lendo aquele velho poema cansativo, cheio de desejos sem vontade, com todas as suas palavrinhas difíceis mal colocadas e seu cheiro de livro empoeirado com o sabor de chocolate quente, na manhãzinha fria e entediada de sábado, que nem sendo reinventado chegaria aos pés do sentimento que tenta domesticar, eu te enxergo do outro lado da rua, com seus olhos marejando docilidade. Mas só eu conheço a tua impaciência e incerteza, que não estão aptos ao bom amor.
  E se tornou o mais querido. 


  A xícara pequena, cheia de florzinhas detalhadamente pintadas, na qual pousava teu café nas manhãs que pedem um bom abraço e cobertores, está sobre a mesa, com o chá que tu detestava e que deveria estagnar ali, porque eu também o odeio. Mas eu o bebo. Não, eu bebo você. É a sua amargura que dança pela minha garganta, fazendo a fervura borbulhar no sangue. Não, te fazendo borbulhar na minha pele. E revirar no meu estômago. E anestesiar a minha mente. E sem calar a minha sede,  queimar a minha língua. E me queimar, com minha própria loucura.
 Mas você foi... você foi...
 Mas você foi o mais querido.