segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A noite é uma criança.

   
   Eu resolvi dar uma voltinha em meio a estes insetos insignificantes. Sabe, meu doce lar não é dos piores, mas causar um pouquinho de pânico por aqui às vezes, é diversão garantida. Além de que, me sinto meio sozinho.
   Vai ser este verme aqui. Este mesmo. Não muito alto, cabelos claros, olhos escuros, barba mal feita e uma voz legal. Pronto para o serviço. Agora seu corpo é uma casca vazia e vai ser minha morada. Hora de arranjar uma puta.
   
   Entro no bar, olho ao redor e examino bem para achar meu futuro brinquedinho. Como sempre, chamando a atenção. Olhares mau encarados vindos das larvas mais barrigudas que algumas vadias têm o orgulho de chamar de "seu homem", se direcionam a mim. Posso ver o desejo sendo exalado desde o olhar até a respiração das mesmas. Na mesa de sinuca, o barulho das bolas se chocando causa um ruído maior aos meus ouvidos do que esses inúteis podem imaginar. O tilintar dos copos enquanto eles brindam bêbados aos berros por futilidades humanas, parece uma sinfonia desafinada. O cheiro da bebida sendo derramada dentro dos copos me faz sentir seu gosto tão bem que eu poderia jurar que sou eu quem está bebendo. Já o cheiro da carne humana deveria ser considerado poluição. Vermes nojentos. 
   Avisto a fêmea e sei que ela vai ser ótima para o trabalho. Um tanto menor que eu, morena, cabelos escuros compridos e enrolados. Olha aqueles peitos e aquela bunda, tão bem empinados quanto uma pipa.  Se não fosse tão necessária, eu a torturaria e a mataria depois de comê-la. Vadia imunda.
   Me aproximo, e aos seus olhos humanos ingênuos - diferentemente de seu corpo - sou um cara legal. Eu a cubro de elogios - tudo muito bem calculado e nas horas certas, é claro. Sou bom no que faço. Uso de toda a gentileza, a envolvo em minhas palavras, toco-lhe como se fosse uma rosa e depois de tanta conversa - eu diria "depois de tanto tédio" -, bem sei que ela acha que eu sou o cara que vai olhar para suas coxas e enxergar sua alma, que eu vou tirá-la da vida de imundisse luxuriosa e dos velhos asquerosos que passeiam por seus seios fartos e pele macia. Ela pensa que sou eu quem vai mudar sua vida. Pois bem, gracinha, vou mesmo.
  
   A levo para um quarto qualquer, em um motel qualquer. O primeiro que encontramos, na verdade. Depois de tanta enrolação - que ela chamaria de preeliminares -, ela está despida na minha frente. E logo sua carne será selada com o líquido maldito que ela terá a honra de receber de mim. 
  Seus punhos cerrados sobre o leçol, o ritmo descompassado de seu coração e os rangidos da cama denunciavam a veracidade das ultimas gotas de felicidade que escorriam por seu corpo. Enquanto ela sorria, atuava, sussurrava, cavalgava e cantarolava com seu prazer as mais belas melodias, mal sabia ela que estava entregando-me sua alma. Eu posso dar-lhe mais disto durante esta noite. O quanto você quiser. 
  Agora, estou impregnado por todo seu corpo. Serei a causa das suas noites de insônia, os sussurros que te acordarão no meio da madrugada e os gritos de horror que irão tirar seu sossêgo.
  
  Amanhã, quando ela acordar, seu ventre carregará sua maldição.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A doçura do demônio.

   
   Quatro paredes. Um cômodo branco sem portas e sem janelas. 
   Eu estava sentada em um sofá vermelho. Vermelho como sangue. Bonito, confortável. Grande demais para mim, pequeno demais para os nós em minha garganta. Me mantive fixada em um ponto: seus olhos escuros hipnotizantes, comendo a minha alma enquanto me observava. Rindo da minha insegurança. Seu rosto pálido, contrastando com os cabelos tão pretos e bagunçados, apoiado sobre uma mão. O cotovelo apoiado sobre o braço do sofá vermelho - vermelho como sangue - de frente para mim. As pernas cruzadas, inquietas, se divertiam tanto quanto ele enquanto eu apenas esperava.
   Meus olhos são do tamanho da lua, cor de terra. Cabelos cor de anoitecer, tão soltos e desleixados quanto eu. Geralmente ninguém enxerga o que há por trás destes olhos que se assemelham a um cometa entrando na atmosfera da Terra, mas isso não parecia funcionar com ele. Ele bebia o meu sangue antes mesmo de me tocar.
   A cada segundo que passou enquanto eu via sua face dançar, o medo se afogava naquele sofá tão vermelho quanto sangue. O meu sangue.
   Ele se levantou. Elegante, terrorista psicológico. Não era muito alto. Veio andando em minha direção lentamente.
   Eu me levantei. Fui andando receosa, de frente para ele, respondendo à seus passos. Em algum momento me encontraria com a parede.
     
   Nada melhor para quebrar o silêncio do que uma voz revestida de sadismo.
   -Qual o seu delírio mais real? Do que você é feita? - ele me olhava fixo, cheio de uma calma que gerava desespero. - O que você esconde aí dentro? O que há por trás dos muros que você cria ao seu redor?
   
    Nossos pés dançavam ao mesmo ritmo, enquanto em meu peito, o coração fazia o inverso. Seus passos me causavam um terror exuberante. E a loucura é poética.

   Ele estava cada vez mais perto. Compassadamente.
   -Diga-me, diga-me: do que você tem medo? O que sustenta o mundo que há dentro das suas paredes?
  Ele parou.
  -Você ama? - riu e continuou a andar.
   
   Eu senti a parede se chocando contra o medo que me tomava. O barulho do meu último suspiro. 
   Ele se aproximou. Abaixou o rosto, próximo ao meu. Olhou fundo em meus olhos. Um sussurro.
   -Qual é o seu desejo mais reprimido? - sorriu.

  E então suas mãos estavam cada uma em um lado da minha cabeça, apertando-a com tanta força que eu achei que ela fosse explodir. Meus pés já não sentiam o chão. Nenhum grito desesperado, nenhum pedido de compaixão - horror, apenas. E explodiu.
   E as paredes tão brancas ficaram vermelhas. Vermelhas como sangue. Meu corpo desfalecido sentia que ele havia me transtornado ao ponto de me fazer perder a cabeça. Talvez meus miolos grudados por toda sua extensão fossem um belo adorno, combinando com sua risada. Ria como se não houvesse amanhã.


   
  

domingo, 9 de janeiro de 2011

A morte é frágil.





Me peguei já andando em meio à uma rua conhecida, com gente desconhecida, no que parecia ser a noite no meio da noite. Eu estava indo para onde precisava ir, embora não soubesse bem porque e nem onde. Talvez apenas não soubesse.
  Eu perdi metade do caminho porque apenas a metade que eu havia caminhado tinha sido construída. Talvez este caminho fosse só uma metade.
  Cheguei. Era uma cabana velha de madeira e mal arrumada. Pressa e medo, é tudo que havia naquele lugar e naqueles rostos desconhecidos tão conhecidos. Ela iria chegar até mim a qualquer momento. Mas antes que chegasse até nós, estaríamos bem longe. Seja na estrada ou no inferno, estaríamos longe, de qualquer forma e através de qualquer caminho.
  Ela estava ali mesmo antes de chegar. Ela estava onde quer que eu estivesse, porque eu via seus olhinhos tão mais azuis que o céu, famintos por mim, em qualquer lugar. 
  Partir é o que estava escrito na mente de todos, é o que saía da respiração de cada um deles.
  O único jeito era ficar lúcida ou acordar. Em algum lugar eu sabia disso, mas não me recordaria até que acabasse.
  Entramos no carro. Seguimos sem olhar para trás, na velocidade mais alta que um carro poderia correr dentro da minha cabeça. Eu ainda não entendia bem porque precisava fugir, porque eu sabia de tudo aquilo mesmo sem saber de nada. Eu precisava de um motivo além do medo para estar fugindo de um ponto para outro dentro da minha mente.
  Luzes alaranjadas, barulho de outros carros. Barulhos não tão atormentados quanto nós. Era um túnel.
  O barulho da morte se chocando contra nós. Batemos antes mesmo de perder o controle. Talvez nunca tivessemos tido o controle.
  Ela estava ao meu lado dentro do carro. Ela e todos os cádaveres dos que me acompanhavam. Seus cabelos loiros encaracolados e sua face angelical, que não seria tão bem portadas por qualquer outra criança no mundo, se voltavam para mim. 
  "Se você não for minha, não será de mais ninguém."
   
  Dormi.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dance!

    
    Eu não sabia exatamente onde estava. Eu apenas estava.
    Era noite, céu estrelado e vento frio. Casas velhas, pequenas. Paredes sujas, alguns buracos. Uma delas tinha um quintal enorme, de terra, mal cuidado e sujo, com bananeiras e outras àrvores. Estava tudo escuro. Eu estava só.
    Algo me impeliu a entrar. Talvez medo, talvez curiosidade, não sei. Mas eu entrei. Entrei devagar e cuidadosamente. Estava abandonada. Largada, suja. Coisas no chão, pedaços de tijolos, sujeira dos buracos na parede. Portas de madeira, algumas caindo aos pedaços, outras apenas os pedaços. Escuro.
   Adentrei um dos quartos. Mais sujeira, mais buracos, mais escuro. Velas acesas clareando fraco. 
   Não havia ninguém, supostamente. Não deveria haver velas. Não acesas, pelo menos.
   Passos. Sensações.
   Uma velha aparece à porta e ela diz que eu não posso sair. Ela diz também, que eles me querem ali. Que eles me querem.
   Pavor. Frio percorrendo a espinha. A espinha quase saindo fora do corpo. 
   Um riso velho e sombrio. Amarelado, sem alguns dentes. Divertidamente sombrio. Me pergunto se a espinha ainda estava ali. 
   Corri. O riso me acompanhou, ao contrário da velha, estagnada com sua cara de maracujá murcho, no mesmo lugar. Velha maldita!
   É engraçado como o pavor tornou a casa tão simples e tão pequena em um enorme labirinto. É engraçado como nossa cabeça se torna um enorme labirinto às vezes. Dando voltas e voltas dentro de si mesmo, querendo encontrar a saida. Querendo fugir de algo que está impregnado em você, assim como as mãos e marcas deles estão impregnadas em mim.
   Eu podia sentir a podridão de suas almas dançando pela casa. Dance, minha querida, dance!
   A velha continuava rindo. Convidei o frio a entrar, era assustador demais sozinha. A saída estava logo à frente, embora nunca houvesse tido saída.
   
   Do que você tem medo?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ofélia.


Oh, pobre Ofélia!
No meio da noite, mãos puxavam-lhe as pernas
Marcavam-lhe com arranhões as costas
Tocavam-na de maneira voraz
Sugavam-lhe as forças como quem não se satisfaz

A doce menina se desesperava
Sentia o toque, porém nada enxergava
Em pensamento se perguntava
O nome de quem por alguns minutos, secretamente a amava
Sempre voltando, como quem não esconde que gosta
E com sangue nas paredes
Ele lhe deu a resposta

Ofélia gritava, agoniava e chorava
Num surto calava-se e só fazia esperar
E chegando ao fim, mesmo ela, custava a acreditar
Que em meio à noite vieram lhe visitar
E o ato a transtornava ao mesmo que tempo que a viciava


Ah, pobre Ofélia!
Um belo dia, foi encontrada
Morta e ensanguentada, com as pernas marcadas
Cortes enfeitavam-lhe o corpo
E a loucura adornava sua alma
Apaixonou-se por seu visitante secreto
E o medo que ele lhe proporcionava

Pobre, pobre Ofélia!
Tão jovem, tão bela
Mais uma vítima do amor platônico.