sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dance!

    
    Eu não sabia exatamente onde estava. Eu apenas estava.
    Era noite, céu estrelado e vento frio. Casas velhas, pequenas. Paredes sujas, alguns buracos. Uma delas tinha um quintal enorme, de terra, mal cuidado e sujo, com bananeiras e outras àrvores. Estava tudo escuro. Eu estava só.
    Algo me impeliu a entrar. Talvez medo, talvez curiosidade, não sei. Mas eu entrei. Entrei devagar e cuidadosamente. Estava abandonada. Largada, suja. Coisas no chão, pedaços de tijolos, sujeira dos buracos na parede. Portas de madeira, algumas caindo aos pedaços, outras apenas os pedaços. Escuro.
   Adentrei um dos quartos. Mais sujeira, mais buracos, mais escuro. Velas acesas clareando fraco. 
   Não havia ninguém, supostamente. Não deveria haver velas. Não acesas, pelo menos.
   Passos. Sensações.
   Uma velha aparece à porta e ela diz que eu não posso sair. Ela diz também, que eles me querem ali. Que eles me querem.
   Pavor. Frio percorrendo a espinha. A espinha quase saindo fora do corpo. 
   Um riso velho e sombrio. Amarelado, sem alguns dentes. Divertidamente sombrio. Me pergunto se a espinha ainda estava ali. 
   Corri. O riso me acompanhou, ao contrário da velha, estagnada com sua cara de maracujá murcho, no mesmo lugar. Velha maldita!
   É engraçado como o pavor tornou a casa tão simples e tão pequena em um enorme labirinto. É engraçado como nossa cabeça se torna um enorme labirinto às vezes. Dando voltas e voltas dentro de si mesmo, querendo encontrar a saida. Querendo fugir de algo que está impregnado em você, assim como as mãos e marcas deles estão impregnadas em mim.
   Eu podia sentir a podridão de suas almas dançando pela casa. Dance, minha querida, dance!
   A velha continuava rindo. Convidei o frio a entrar, era assustador demais sozinha. A saída estava logo à frente, embora nunca houvesse tido saída.
   
   Do que você tem medo?

2 comentários:

  1. Gosto dessa aura de mistério,do modo como descreveu, escolheu bem as palavras. Gosto também de como sintetiza sentimentos e sensaçãoes em frases curtas:

    "Pavor. Frio percorrendo a espinha. A espinha quase saindo fora do corpo.
    Um riso velho e sombrio. Amarelado, sem alguns dentes."

    Parabéns pelo texto.

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  2. "Do que você tem medo?" - De velhas com cara de maracujá murcho. (:

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