domingo, 16 de janeiro de 2011

A doçura do demônio.

   
   Quatro paredes. Um cômodo branco sem portas e sem janelas. 
   Eu estava sentada em um sofá vermelho. Vermelho como sangue. Bonito, confortável. Grande demais para mim, pequeno demais para os nós em minha garganta. Me mantive fixada em um ponto: seus olhos escuros hipnotizantes, comendo a minha alma enquanto me observava. Rindo da minha insegurança. Seu rosto pálido, contrastando com os cabelos tão pretos e bagunçados, apoiado sobre uma mão. O cotovelo apoiado sobre o braço do sofá vermelho - vermelho como sangue - de frente para mim. As pernas cruzadas, inquietas, se divertiam tanto quanto ele enquanto eu apenas esperava.
   Meus olhos são do tamanho da lua, cor de terra. Cabelos cor de anoitecer, tão soltos e desleixados quanto eu. Geralmente ninguém enxerga o que há por trás destes olhos que se assemelham a um cometa entrando na atmosfera da Terra, mas isso não parecia funcionar com ele. Ele bebia o meu sangue antes mesmo de me tocar.
   A cada segundo que passou enquanto eu via sua face dançar, o medo se afogava naquele sofá tão vermelho quanto sangue. O meu sangue.
   Ele se levantou. Elegante, terrorista psicológico. Não era muito alto. Veio andando em minha direção lentamente.
   Eu me levantei. Fui andando receosa, de frente para ele, respondendo à seus passos. Em algum momento me encontraria com a parede.
     
   Nada melhor para quebrar o silêncio do que uma voz revestida de sadismo.
   -Qual o seu delírio mais real? Do que você é feita? - ele me olhava fixo, cheio de uma calma que gerava desespero. - O que você esconde aí dentro? O que há por trás dos muros que você cria ao seu redor?
   
    Nossos pés dançavam ao mesmo ritmo, enquanto em meu peito, o coração fazia o inverso. Seus passos me causavam um terror exuberante. E a loucura é poética.

   Ele estava cada vez mais perto. Compassadamente.
   -Diga-me, diga-me: do que você tem medo? O que sustenta o mundo que há dentro das suas paredes?
  Ele parou.
  -Você ama? - riu e continuou a andar.
   
   Eu senti a parede se chocando contra o medo que me tomava. O barulho do meu último suspiro. 
   Ele se aproximou. Abaixou o rosto, próximo ao meu. Olhou fundo em meus olhos. Um sussurro.
   -Qual é o seu desejo mais reprimido? - sorriu.

  E então suas mãos estavam cada uma em um lado da minha cabeça, apertando-a com tanta força que eu achei que ela fosse explodir. Meus pés já não sentiam o chão. Nenhum grito desesperado, nenhum pedido de compaixão - horror, apenas. E explodiu.
   E as paredes tão brancas ficaram vermelhas. Vermelhas como sangue. Meu corpo desfalecido sentia que ele havia me transtornado ao ponto de me fazer perder a cabeça. Talvez meus miolos grudados por toda sua extensão fossem um belo adorno, combinando com sua risada. Ria como se não houvesse amanhã.


   
  

5 comentários:

  1. Não é a toa que você é a minha procrastinadora predileta. Seus textos carregados de maldade me encantam. *-*

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  2. Acho que já falei isso, mas não custa repetir. Fico fascinada pelos seus textos. Palavras doentias e personagens paranóicos. Sinto. haha

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  3. Olha, muito bom! Gostei da linha agonizante em que o texto caminha. Parabéns.

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  4. Seus textos são gêniais. Diferentes, mas ainda assim são ótimos. Parabéns mesmo.

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  5. Você vem se aprimorando a cada texto, meus parabéns. Gosto do modo como escreve, das persofificações e expressões que utiliza para descrever ações simples: "As pernas cruzadas, inquietas, se divertiam tanto quanto ele".
    Tens em mim uma admiradora.

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