sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vamos brincar


   Agora a décima gota de suor do tamanho de uma uva esboçava um caminho sinuoso em sua testa, caindo por seu rosto infestado com a expressão do que há de pior no medo. O corpo trêmulo estava espremido num canto, com a cabeça entre as pernas que eram abraçadas pelos braços esguios, onde via-se claramente as veias seguindo seu curso, tão alva era a pele da menina. As bochechas ruborizadas eram a prova incontestável do pavor que lhe atormentava e que a fez deslocar-se desesperadamente pela casa. Ouvia claramente as risadas carregadas com maldade que saiam de suas bocas e desejou que eles apenas fizessem parte de um pesadelo novamente.
  Ficou ali por mais de meia hora, ouvindo passos e risadas insanas sem saber se realmente deveria esperar pelo melhor. Eles gritavam seu nome enquanto juravam-lhe as dores mais excruciantes e infindáveis tormentos. Queria poder contar com alguém que não fosse a si mesma naquele momento. Sabia que o que a esperava ia mais além do que a imaginação lhe permitia.
  Percebeu uma certa leveza no ambiente, a mesma que sentia quando eles iam embora. Os passos e vozes haviam cessado e apesar da insegurança não lhe permitir, resgatou a coragem mais profunda que dormia em si e aventurou-se pelos corredores fracamente iluminados da casa. Preparou psicológicamente as pernas delgadas para correrem o quanto pudessem caso trombasse com algum dos indesejados visitantes e foi. E o tempo caminhou tão normalmente quanto anormalmente acontecia. 
  A coloração alaranjada começou a se derramar pelo céu, marcando a transição para a noite e ela começou acalmar-se, mesmo sabendo que não deveria. Quando a escuridão finalmente enfeitou o teto do mundo e as estrelas se arranjaram confortáveis em seus devidos lugares, decidiu que era hora de se recuperar de um pesadelo e pôs-se a dormir.
  Tão logo pegou no sono, sentiu algo frio e úmido esfregar-se em suas pernas. Reuniu mais uma vez a coragem e arremessou o cobertor ao chão. Viu exatamente o que não queria ver. Uma garota magricela e cadavérica de cabelos negros e embaraçados grudava-se à suas pernas e a olhava fixamente.
  -Por que nos deixou? Você disse que ficaria com a gente. Você vai ficar, vai ficar! 
  Agora escalava-lhe as pernas e arrastava seu corpo pela metade com as tripas podres pela cama da menina, que num ato de desespero, sacudia-se tentando atirá-la ao chão. Desgostosa, a criatura abriu a boca em proporções que engoliriam uma cabeça, deu grito seco e agudo e cravou os dentes em suas pernas. Perfurou-lhe a carne e fez o sangue jorrar. A menina gritava, e agora já não sabia se deveria prender a atenção aos seus berros ou as risadas medonhas que preenchiam o quarto. Mãos saiam de todos os lados da cama, de todas as espessuras e texturas e prendiam-se ao seu corpo. Cravavam-lhe desde as unhas aos dentes mais afiados, pintavam as paredes do quarto com a mais rubra cor que espirrava do interior da menina e riam, riam como se sentassem-se sobre o trono do mundo.
  -Você prometeu. Prometeu que a gente ia brincar todos os dias. Prometeu que ficaria conosco. Traiu nossa confiança, deixou-nos. Mandou-nos embora e foi se divertir com essas crianças vivas medíocres. Você é nossa agora. Vai escutar nosso riso para sempre.



*Para o eixo temático do projeto blogueiros literários.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Boa noite.

   
  Encarei aqueles olhos castanhos enormes de dentro da lanchonete, no sábado à tarde pelo vidro embaçado pela chuva no que decidi ser a última vez. Eu tinha certeza que cada segundo que passava, continha um adeus. Um adeus que eu tentava dizer todos os dias.

  Paguei a conta e me lancei a caminhar pela chuva até em casa. Cada gota caía como uma bomba sobre minha cabeça, escorregando por minha face e delineando um caminho inseguro e sem volta, como parecia o meu. O vento cantarolava frio, mas qualquer coisa soava melhor que meus pensamentos gritando que enlouqueci. Ora, passaram-se já quatro meses desde sua morte, e sua frágil figura continuava a me observar sempre que eu menos esperava. E de tão imprevisível, previsível tornou-se.

  Chegando em casa, não fiz outra coisa primeiro que não fosse tomar um banho quente. E enquanto deixava a água escorrer por mim, não conseguia decidir-me entre o que era pior: o frenesi que se escondia por debaixo da chuva fria, enquanto pingava uníssona deturpando qualquer pensamento de escape que eu tinha ou o caos no qual minha mente estava inserida. Não conseguia me decidir até que abri os olhos e me deparei com a marca de suas mãozinhas no vapor d’água que se grudava ao box, como se fossem escorregando.
  Não, aquilo não estava acontecendo. Fechei os olhos e os esfreguei com as mãos. Abri. As marcas permaneceram ali, tão vívidas quanto todas as vezes em que Anne pôs-se a me observar durante a madrugada ou me assustar enquanto eu dobrava esquinas à noite. Eu poderia acordar daqui a alguns minutos e descobrir que era só mais um pesadelo causado pela mente de um pai inconformado, e que as sessões no psicólogo serviram de alguma coisa além de me aborrecer, não poderia? Não. Definitivamente não poderia.
  Não precisei pensar muito. Aliás, não poderia, queria ou conseguiria fazê-lo. Coloquei as primeiras roupas que achei e corri até a cozinha.

  — Lisa, faça as malas imediatamente. Vamos viajar.
  — Viajar para onde? Por quê? – Os olhos castanhos gigantes e infantis que deram origem àqueles que me perturbavam, encaravam-me perplexos e confusos.
  — É a Anne, Lisa! É a Anne! – eu disse quase gritando e gesticulando violentamente, sentindo que faltava pouco para que as lágrimas se formassem nos meus olhos.
  De novo, John? – ela agora me encarava decidindo-se entre a pena e a impaciência – Você não tem tomado seus remédios, não é mesmo? – dizia furiosa, com as mãos apoiadas à cintura – Eu disse à você que não deixasse o psicólogo, mas desde quando você me ouve? Quando você vai entender que a vida continua? Já se passaram quatro meses e  você continua tendo as mesmas alucinações e pesadelos frequentemente...

  Parei de ouvir a partir daí. Tudo o que eu ouvia agora era uma vozinha familiar, delicada e aguda agonizando, gritando com todo o desespero que o mundo pode abrigar, enquanto eu balançava minha cabeça pesada negativamente e assistia as coisas em movimentos extremamente lerdos. Até que Anne apareceu em minha frente: nua, pálida e cheia de hematomas roxos pelo corpo. A infelicidade transbordava-lhe os olhos e congelava o sangue que tentava inutilmente correr em minhas veias. Esticou as duas mãozinhas na minha direção.
  Veja, papai! Veja o que fazem comigo! Venha comigo, papai! Me proteja, eu não quero ficar só! - agora as veias começavam a exibir sua trajetória por seu corpo, escurecendo-se na pele cadavérica.
  Anne sussurrou agonia em meus ouvidos e assistiu enquanto meu corpo amolecido pelo domínio da mente perturbada perdia os sentidos e caía inconsciente sobre o chão da cozinha.





Continua