quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Boa noite.

   
  Encarei aqueles olhos castanhos enormes de dentro da lanchonete, no sábado à tarde pelo vidro embaçado pela chuva no que decidi ser a última vez. Eu tinha certeza que cada segundo que passava, continha um adeus. Um adeus que eu tentava dizer todos os dias.

  Paguei a conta e me lancei a caminhar pela chuva até em casa. Cada gota caía como uma bomba sobre minha cabeça, escorregando por minha face e delineando um caminho inseguro e sem volta, como parecia o meu. O vento cantarolava frio, mas qualquer coisa soava melhor que meus pensamentos gritando que enlouqueci. Ora, passaram-se já quatro meses desde sua morte, e sua frágil figura continuava a me observar sempre que eu menos esperava. E de tão imprevisível, previsível tornou-se.

  Chegando em casa, não fiz outra coisa primeiro que não fosse tomar um banho quente. E enquanto deixava a água escorrer por mim, não conseguia decidir-me entre o que era pior: o frenesi que se escondia por debaixo da chuva fria, enquanto pingava uníssona deturpando qualquer pensamento de escape que eu tinha ou o caos no qual minha mente estava inserida. Não conseguia me decidir até que abri os olhos e me deparei com a marca de suas mãozinhas no vapor d’água que se grudava ao box, como se fossem escorregando.
  Não, aquilo não estava acontecendo. Fechei os olhos e os esfreguei com as mãos. Abri. As marcas permaneceram ali, tão vívidas quanto todas as vezes em que Anne pôs-se a me observar durante a madrugada ou me assustar enquanto eu dobrava esquinas à noite. Eu poderia acordar daqui a alguns minutos e descobrir que era só mais um pesadelo causado pela mente de um pai inconformado, e que as sessões no psicólogo serviram de alguma coisa além de me aborrecer, não poderia? Não. Definitivamente não poderia.
  Não precisei pensar muito. Aliás, não poderia, queria ou conseguiria fazê-lo. Coloquei as primeiras roupas que achei e corri até a cozinha.

  — Lisa, faça as malas imediatamente. Vamos viajar.
  — Viajar para onde? Por quê? – Os olhos castanhos gigantes e infantis que deram origem àqueles que me perturbavam, encaravam-me perplexos e confusos.
  — É a Anne, Lisa! É a Anne! – eu disse quase gritando e gesticulando violentamente, sentindo que faltava pouco para que as lágrimas se formassem nos meus olhos.
  De novo, John? – ela agora me encarava decidindo-se entre a pena e a impaciência – Você não tem tomado seus remédios, não é mesmo? – dizia furiosa, com as mãos apoiadas à cintura – Eu disse à você que não deixasse o psicólogo, mas desde quando você me ouve? Quando você vai entender que a vida continua? Já se passaram quatro meses e  você continua tendo as mesmas alucinações e pesadelos frequentemente...

  Parei de ouvir a partir daí. Tudo o que eu ouvia agora era uma vozinha familiar, delicada e aguda agonizando, gritando com todo o desespero que o mundo pode abrigar, enquanto eu balançava minha cabeça pesada negativamente e assistia as coisas em movimentos extremamente lerdos. Até que Anne apareceu em minha frente: nua, pálida e cheia de hematomas roxos pelo corpo. A infelicidade transbordava-lhe os olhos e congelava o sangue que tentava inutilmente correr em minhas veias. Esticou as duas mãozinhas na minha direção.
  Veja, papai! Veja o que fazem comigo! Venha comigo, papai! Me proteja, eu não quero ficar só! - agora as veias começavam a exibir sua trajetória por seu corpo, escurecendo-se na pele cadavérica.
  Anne sussurrou agonia em meus ouvidos e assistiu enquanto meu corpo amolecido pelo domínio da mente perturbada perdia os sentidos e caía inconsciente sobre o chão da cozinha.





Continua

6 comentários:

  1. Não tenho mais palavras para descrever o quanto você tem se aprimorado e me causado extrema admiração. Seus textos são penetrantes e perturbadores, de uma forma muito boa, que prende a atenção do leitor e instiga a curiosidade e emoção. Mais uma vez, meus parabéns. A cada dia seus textos me surpreendem mais.

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  2. Selos u_u :
    http://selosdoepifaniaa.blogspot.com/2011/02/presentes-da-carol-e-da-maiara.html

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  3. Eu havia dito que a alternativa "expectativas não correspondidas" não constava? Sabia que descontaria tudo no próximo texto. E ah, atenção para o novo template. (=

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  4. [Sãos os quatro do post que eu te mandei. *-*]

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  5. É contentador saber que sempre que entro aqui me impressiono. Seus textos me deixam com um tom de maldade que não sei explicar.

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  6. Um bom domínio da descrição é essencial no que você escreve, e faz isso bastante bem. É algo muito sensível mesmo.

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