quarta-feira, 2 de março de 2011

Eu já vi.


   Era iluminado. Verde, livre, amplo, mas desconhecido. Leve e deslumbrante. Eu estava sentada na beira de algo que parecia ser uma ponte, que ligava um lado ao outro daquele imenso rio de uma cor indefinida, puxada para o branco, que corria irreversível e misterioso, desaguando em algum lugar que eu talvez jamais fosse conhecer sem ter de me jogar nele. Talvez eu até já tivesse me jogado uma vez, há muito tempo. 
    Observava o céu de um azul hipnotizante, com nuvens frágeis que se aconchegavam distribuidas irregularmente, com uma curiosidade de outro mundo. Talvez - e apenas talvez - literalmente. Era realmente claro, iluminado. Não a clareza cegadora e dominante que tinha o Sol, uma claridade acolhedora que jorrava de uma fonte indefinida. 
  Então percebi que do alto de um dos lados da ponte, perfeitamente visível para quem, assim como eu, sentava-se ao meio, crianças que pareciam ter daquela luz que clareava o lugar, tornando as sutilmente brancas como o rio, vestidas em roupas soltas e simples, olhavam por um breve momento para baixo e depois jogavam-se pacificamente. Uma após a outra, perdiam-se naquele rio e eram levadas pela correnteza impiedosa como se tornassem-se parte dele. Gostaria de saber o que estavam pensando.
  Um rapaz que vestia-se com as mesmas roupas singelas que as crianças, também envolto daquela fraca luminosidade, sentou-se ao meu lado. Reparei que ele era tão branco como as nuvens e os olhos misturavam-se ao azul do céu.
  -São almas - disse-me com o olhar perdido ao longe.
  -Quem é você? - perguntei.
  -Sou seu guia - a voz esbanjava uma calma que soava tão eficiente quanto canções de ninar.
  
  No extremo da ponte, uma garotinha de pele alva, cabelos negros e lisos, de olhos verdes com esmeraldas, olhou-me. Retribui curiosa o olhar. Observou-me durante um curto tempo, porém intensamente. Direcionou o olhar ao rio, voltou-o para mim novamente e enfim, fechou os olhos. Jogou-se. Durante um breve momento tive a sensação de saber o que acontecia ali. 
  - O que faço aqui? - indaguei.
  - Você não sabe? - ele deu um sorriso torto.


  Acordei com o barulho de passos desesperados pela casa. Alguém chamava meu nome.
  - Gabriela! Gabriela!
  - O que é? - meus olhos ainda despejavam sono.
  - Sua tia foi internada, parto de risco e convulsão. Vi minha filha sair quase morta de casa - minha vó falava quase aos prantos.
  
  Não sabia bem o que pensar na hora. Preferi nem pensar. Talvez nem precisasse. 
  Meses depois, eu podia observar uma garotinha alva, de cabelos tão negros quanto a noite, olhos enormes cor de esmeralda, me olhando sempre curiosa e espantada. O olhar dela fixava-se em mim como se tivesse visto-me antes de ter nascido.

3 comentários:

  1. Suspiros. E eu me sinto imerso nos seus textos como crianças (malvadas) que se jogam no rio.

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  2. HUm...a doro esse tipo de leitura!

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