sexta-feira, 4 de março de 2011

Fantasma materno.


  Meia noite, anunciava o relógio velho e cruel que se divertia do alto da parede branca, enquanto a menina de longos cabelos ruivos, agora com a pele mais branca que o luar, observava demoníacamente tediosa de cima da grande cama de madeira, o desespero de sua mãe. Os olhos cor de mel corriam por cada linha do rosto materno que fulgurava horror de todos os tamanhos e formas, e não cansava-se de rir assustadoramente com a voz então grave que certamente não lhe pertencia. Arrumou-se com os braços em torno das pernas sentada na cama, e revirava os olhos com desdém.
  - Filhinha, filhinha! - implorava a mãe com o pranto na voz e o medo nos olhos. - Por favor, filhinha, fale comigo! Diga a mamãe que você ainda está aí! - seus dedos entrelaçavam-se a um terço que era apertado por seu desespero.

  O padre rezava - aparentemente era inútil - algo em latim, em tom imperativo, mostrando-se determinado em resolver mais essa desventura que cruzava seu caminho, mas intimamente temia que ninguém saisse dali vivo. Talvez nossos medos sejam mais próximos da realidade do que pensamos.
  - Manda esse velho babão calar a boca e eu prometo que dou uma fodida com ele no canto mais escuro da igreja, bem na frente da cruz do seu Senhor - a menina zombou e lentamente foi guiando a lingua envolta por uma saliva gelatinosa para fora da boca de lábios pálidos e rachados. Via-se a língua dela alcançando um tamanho anormal. Movimentou-a irregularmente com um sorriso no rosto e engoliu de volta, soltando uma risada sarcástica de dar calafrios.
  - Cale-se, demônio! - gritou o padre.
  - Que foi? Prefere que seja uma orgia no meio da missa? - ela provocou e riu mais uma vez. Na pele podia-se observar cada uma de suas veias.
  A mãe derramou-se em lágrimas, temendo que não tivesse mais a filha em seus braços.
  
  Aquilo já estava cansativo. Depois de tanto tempo observando as vãs tentivas de ser expulso do corpo e do lugar que resolveu getilmente visitar, derramou-se em tédio. Aquelas paredes eram brancas demais, pensou passando pelo quarto os olhos cheios da intenção de se divertir. Aquela teias de aranhas nos cantos do teto pareciam-lhe um bom adorno, mas é claro que poderia ser melhorado. 
  - Psiiu - direcionou-se à mulher. - Quer sua menininha, quer?
  - O que você quer de mim? - a mãe transtornada e cheia de esperança estava atenta a cada movimento da criatura, disposta a ter de volta a filha.
  - Sabe aquele ursinho que ela deixa em cima da cama? Traga ele aqui, dê-me-o e eu prometo devolver sua filhinha - sorriu torto. - É tudo o que eu quero, eu juro - mentiu.
  - Não dê ouvidos à ela! - O padre exclamou em voz alta, temendo o pior. - É mentira! Não faça o que ela pede! Para quê diabos iria querer um urso? - alertou novamente.
  - Não ouça esse velho ridículo! Você quer sua menina, sim? Traga-me o urso!

  A pobre mulher não pensou duas vezes. Cegada pelo desejo de ter de volta sua cria, correu ao quarto para encontrar o tal urso. Cavar sua cova, é como chamo isso.
  - Eu te dei a chance de comer loucamente essa belezinha aqui, padre. Mas agora é tarde - sorriu.
  Repentinamente o corpo da menina debatia-se violentamente sobre a cama. O padre, desesperado, rezava novamente, porém agora tão rápido que as palavras pareciam embaralhar-se. Vendo que suas palavras de nada adiantavam, correu em direção a cama e tentou segurá-la.
  Parou. Apenas parou, serenamente - quanta inocência, padre! Olhou irônica para o velho confuso e enfiou-lhe os dedos nos olhos. Sentia o mais imenso prazer, era claramente visível em seu rosto. O padre berrava agonizando, tentando puxar o braço da menina. Tirou os dedos dos olhos dele, apoiou o corpo entre suas pernas e, segurando a cabeça do velho com ambas as mãos, girou-a agil e cruelmente, dando fim ao sofrimento.
  A mulher, estagnada na porta, deixara o urso cair diante da percepção de seu claro erro. Mas já era tarde, porque agora a porta estava bem fechada e a menina estava observando-a por trás, sádica, grudada ao teto.
  - Você a quer de volta? Vai abusar dela novamente, vai? - riu.
  A mulher permanecia sem reação.
  - Vai chupá-la e foder com ela à força, como faz nas suas noites de carência, hein, sua velha mal-comida? - provocou novamente.
  A mulher pensou em correr, mas antes que o pensamento fosse concluído, a menina já havia espremido sua cabeça com as mãos e pintado as paredes com seus miolos. Agora arrancava membro por membro do corpo mole da mãe de sua momentânea morada, deliciando-se, e jogava-os aleatóriamente pelo quarto, observando o sangue jorrar e esparramar-se obediente por toda extensão. Olhava as mãos cobertas de vermelho vivo e toda a pintura que havia feito pelo cômodo com satisfação.
  O relógio, lá do alto, continuava dançando indiferente à qualquer dor e a risada da criatura ecoava divertida e convidativa por toda a casa.
  - Vai querer de novo agora?



Para a 12ª Edição C&F do Projeto Créativité.

15 comentários:

  1. Tenho medo de você.

    Mas vi muita coisa. Isto não é um conto de possessão simplesmente. É uma revolta, uma vingança. Fiquei imaginando a própria menina, antes, invocando demônios em busca de justiça.

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  2. Fiquei perturbada. Huhauahhauhauhua.
    Você escreve muito bem, imaginei tudo tudo. Só cometeu alguns erros de pontuação, tirando isso, a história é assustadoramente forte, rsrs.

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  3. Assustadoramente forte? Isso é fichinha. Morri de medo logo com a foto, imagina com o texto D:
    SHUAHSHAUHSAHS

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  4. Não vou querer. Me deu medo, srsrsrsrrsrs
    Carinhosamente
    Sandra.
    Tbém estou participando do projeto.
    http://sandrarandrade7.blogspot.com/
    Fica o convite.

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  5. Aos fracos de plantão, aconselho: Corram. Com a Kira não existe terror pela metade.

    http://lirismolixo.blogspot.com

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  6. E ah, não poderia deixar de citar:
    "Fantasma materno, assisti o seu rosto a noite inteira na televisão. Tão jovem, desperto, e você sabe que eu podia te educar." <3 Garota Nero predileta.

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  7. Oi, gostei dos seus posts,tô seguindo. Depois passa no meu blog também : http://wglacerda.blogspot.com/
    Até mais

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  8. ei, ei!

    obrigado pelas palavras em sua visita e por me seguir também! fico muito feliz por isso, viu?

    hum, gostei do seu blog, das belas escreitas e principalmente dessas imagens como a última de seu post último.

    beijos e volte sempre!

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  9. Muito interessante o blog !
    Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir...;

    www.bolgdoano.blogspot.com

    Muito Obrigada, desde já !

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  10. Kira, acho que uma pessoa acima irá querer novamente. haha
    Enfim, simplesmente fantástico! Sempre fico envolvida com seus contos de terror, e não me sinto a vítima, me sinto a protagonista em mais pura ação e espalhando terror. Típico daqueles filmes clássicos de terror, me lembrou muito o Exorcista, mas o clássico, sabe como é que é, né?
    É digno de ganhar a edição, seus textos e sua escrita me fascinam por completo! *-*

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  11. Envolvente, pertubador e porra, super bem escrito. Gosto dessa sua narrativa forte, da mescla de suspense e horror. Seus textos são como gritos.

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  12. Palavras sombrias em parágrafos esporádicos. Suspense. Vingança. Parabéns pelos textos.

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  13. Tenah certeza de que vou ler todos os textos do seu blog, adoro o modo como escreve, diferente e um tanto quanto vulgar, mas adorei! Parabéns!

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  14. Cruel ein, essa foto deu medo.
    parabéns!

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  15. É perturbador, e no final, ainda mais perturbador do que se esperava.
    Colocar a gente no lado do demônio foi esperto.

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