segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ele está no meio de nós

  

  Naquela noite tempestuosa que se estendia sobre uma pacífica vila, onde o vento cantarolava frio e as árvores secas se balançavam sem esperança, a senhora Kate havia saído de sua casa e corrido até a velha igreja com semblante de preocupação. Suplicou ao padre Bill que fosse até sua casa, pois há dias sua filha andava estranha: estava emagrecendo rapidamente, não comia direito, mantinha um olhar opaco  e aparentava estar tão pálida que era possível ver suas veias saltando a pele. Mal falava e quando o fazia, falava sozinha. Esta noite havia ouvido um murmúrio vindo de dentro do quarto da filha, porém a voz era grave e não a pertencia. Assustada, espionou por uma fresta na porta e viu a menina sozinha, sentada em sua cama, segurando uma boneca a qual acariciava os cabelos. Logo que notou a presença da mãe, abriu um sorriso de dar calafrios e degolou violentamente o brinquedo. A porta do quarto repentinamente fechou-se sozinha e foi então que a senhora Kate, tomada pelo medo, decidiu que o melhor a ser feito era pedir que o padre benzesse sua filha que estaria com algum encosto. A princípio, Bill achou que a senhora estava sendo um tanto exagerada e que talvez não passasse de um caso de rebeldia da menina, afinal, senhora Kate tinha fama de louca. Desde que seu marido faleceu, ela passou a mal sair de sua velha casa, tinha conversas estranhas e sem sentido e andava com a aparência descuidada. Mas pelo desespero e medo nos olhos da mãe, o padre resolveu atender a seu pedido e foi com ela. 

  Na casa imperava o silêncio e a penumbra. O som dos ponteiros do relógio se movendo soavam como um prelúdio para a loucura. Ela entrou cautelosamente no quarto da filha, seguida pelo padre. Podiam sentir um odor fétido impregnado pelo quarto. Assustou-se ao escorregar e, ao tocar no chão, sentiu algo molhado e espesso. Ao fundo ouvia-se uma risada sádica. Quando Bill acendeu uma luz, havia sangue grudado aos cabelos claros e ao vestido longo e simples que a senhora Kate usava. Incrédula, soltou um grito atemorizado e pousou o olhar perturbado em Lilly, sua filha, sorrindo e segurando a cabeça loura e fria de uma menina que aparentava ter em torno de nove anos. Sentiu o pavor congelar seu corpo.
-Meu Deus, o que é isto? - o padre balbuciou chocado com a cena.
-O que foi mamãe? - Lilly tinha a voz carregada de ironia. - Eu avisei a senhora que a Lara vinha brincar comigo hoje, não avisei? - sorriu.
Os olhos de Lilly, antes verdes como folhas na primavera, estavam negros e grandes como jabuticabas. Nos lábios haviam rachaduras e pequenas feridas estavam espalhadas ao longo de seu rosto. A cabeleira negra e despenteada contrastava com a pele alva e as veias roxas e azuis marcadas pelo corpo.
– Estávamos brincando de esconde-esconde, vocês querem brincar também? – a menina revirou os olhos até que só se visse uma bola branca e começou a rir compulsivamente com a voz rouca e grave.
Desesperado, o padre não pensou duas vezes antes de se levantar trêmula, porém, rapidamente e pegar as chaves da porta, trancando a mãe surpresa e desesperançosa juntamente com sua filha no quarto. “Que Deus me perdoe”, pensou. Recostou-se a parede um tanto receoso e respirou profundamente o ar pesado que circulava pelo ambiente enquanto ouvia Kate bradar pedindo por socorro e bater fortemente na porta. Um grito agudo e estridente ecoou pela casa enquanto ao fundo ainda ouvia-se a risada da menina. Notou que sangue corria por debaixo da porta e resolveu observar pelo buraco da fechadura. Sentiu uma mistura de culpa e excitação ao ver o corpo nu da senhora sobre a cama enquanto sua filha coberta de sangue esfregava-se depravadamente sobre ela. Lilly olhou em direção à porta e exibiu os dentes ainda de leite pontudos num sorriso macabro.

  Bill subiu as escadas apavorado e atravessou o corredor escuro e estreito sentindo seu velho coração pular para fora do peito. Podia sentir sua cabeça latejando. Escutou passos logo atrás dos seus e entrou no primeiro quarto que estava a sua frente, girando a chave na fechadura logo em seguida. Acendeu uma luz e sentou sem fôlego no chão, sentindo as gotas de suor traçarem um caminho ao longo de seu rosto. Notou que o silêncio voltara a imperar sobre o local e desconfiou. Temeroso, iluminou o cômodo em busca de algo para que pudesse se defender e encontrou um velho armário de madeira. Vasculhou entre as velharias ali presentes e encontrou uma arma empoeirada. De olhos brevemente fechados, rezou para que ali houvesse ao menos uma mísera bala e que esta lhe salvasse a vida.
Tão logo encontrou uma esperança, a menina começou a bater brutamente na porta.
-Me deixe entrar, velho maldito – gritou.
O padre fez um sinal de cruz e desejou que pudesse ver a luz do amanhã. Um pequeno buraco foi se abrindo na porta conforme Lilly a socava. Colou o rosto na fresta e deixou os olhos intensos e negros à mostra.
-Oi, padre. Você quer brincar? – questionou e começou a rir sadicamente.
O velho homem atirou pelo buraco, mas então a risada tornou-se mais alta e pavorosa. Um frio percorreu sua espinha dando-lhe um nó na garganta. Lilly dava gritos e batia mais e mais, até que conseguiu abrir um buraco suficientemente grande para que pudesse entrar. O homem, um tanto tonto e trêmulo, disparou mais três tiros pedindo pela misericórdia de seu Deus e não foi ouvido. Errou os três. A menina divertia-se tanto brincando de pega-pega ou esconde-esconde! Grudou as mãos em torno do pescoço do padre e apertou até sentir seus ossos serem esmagados. Então deixou seu corpo desfalecer no chão e pisou em sua cabeça adornada de fios brancos, fazendo seus miolos grudarem-se ao chão e paredes.
E então ela ria e ria. Ria como se fosse morrer. E apontando a arma contra a própria boca, morreu.