segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ele está no meio de nós

  

  Naquela noite tempestuosa que se estendia sobre uma pacífica vila, onde o vento cantarolava frio e as árvores secas se balançavam sem esperança, a senhora Kate havia saído de sua casa e corrido até a velha igreja com semblante de preocupação. Suplicou ao padre Bill que fosse até sua casa, pois há dias sua filha andava estranha: estava emagrecendo rapidamente, não comia direito, mantinha um olhar opaco  e aparentava estar tão pálida que era possível ver suas veias saltando a pele. Mal falava e quando o fazia, falava sozinha. Esta noite havia ouvido um murmúrio vindo de dentro do quarto da filha, porém a voz era grave e não a pertencia. Assustada, espionou por uma fresta na porta e viu a menina sozinha, sentada em sua cama, segurando uma boneca a qual acariciava os cabelos. Logo que notou a presença da mãe, abriu um sorriso de dar calafrios e degolou violentamente o brinquedo. A porta do quarto repentinamente fechou-se sozinha e foi então que a senhora Kate, tomada pelo medo, decidiu que o melhor a ser feito era pedir que o padre benzesse sua filha que estaria com algum encosto. A princípio, Bill achou que a senhora estava sendo um tanto exagerada e que talvez não passasse de um caso de rebeldia da menina, afinal, senhora Kate tinha fama de louca. Desde que seu marido faleceu, ela passou a mal sair de sua velha casa, tinha conversas estranhas e sem sentido e andava com a aparência descuidada. Mas pelo desespero e medo nos olhos da mãe, o padre resolveu atender a seu pedido e foi com ela. 

  Na casa imperava o silêncio e a penumbra. O som dos ponteiros do relógio se movendo soavam como um prelúdio para a loucura. Ela entrou cautelosamente no quarto da filha, seguida pelo padre. Podiam sentir um odor fétido impregnado pelo quarto. Assustou-se ao escorregar e, ao tocar no chão, sentiu algo molhado e espesso. Ao fundo ouvia-se uma risada sádica. Quando Bill acendeu uma luz, havia sangue grudado aos cabelos claros e ao vestido longo e simples que a senhora Kate usava. Incrédula, soltou um grito atemorizado e pousou o olhar perturbado em Lilly, sua filha, sorrindo e segurando a cabeça loura e fria de uma menina que aparentava ter em torno de nove anos. Sentiu o pavor congelar seu corpo.
-Meu Deus, o que é isto? - o padre balbuciou chocado com a cena.
-O que foi mamãe? - Lilly tinha a voz carregada de ironia. - Eu avisei a senhora que a Lara vinha brincar comigo hoje, não avisei? - sorriu.
Os olhos de Lilly, antes verdes como folhas na primavera, estavam negros e grandes como jabuticabas. Nos lábios haviam rachaduras e pequenas feridas estavam espalhadas ao longo de seu rosto. A cabeleira negra e despenteada contrastava com a pele alva e as veias roxas e azuis marcadas pelo corpo.
– Estávamos brincando de esconde-esconde, vocês querem brincar também? – a menina revirou os olhos até que só se visse uma bola branca e começou a rir compulsivamente com a voz rouca e grave.
Desesperado, o padre não pensou duas vezes antes de se levantar trêmula, porém, rapidamente e pegar as chaves da porta, trancando a mãe surpresa e desesperançosa juntamente com sua filha no quarto. “Que Deus me perdoe”, pensou. Recostou-se a parede um tanto receoso e respirou profundamente o ar pesado que circulava pelo ambiente enquanto ouvia Kate bradar pedindo por socorro e bater fortemente na porta. Um grito agudo e estridente ecoou pela casa enquanto ao fundo ainda ouvia-se a risada da menina. Notou que sangue corria por debaixo da porta e resolveu observar pelo buraco da fechadura. Sentiu uma mistura de culpa e excitação ao ver o corpo nu da senhora sobre a cama enquanto sua filha coberta de sangue esfregava-se depravadamente sobre ela. Lilly olhou em direção à porta e exibiu os dentes ainda de leite pontudos num sorriso macabro.

  Bill subiu as escadas apavorado e atravessou o corredor escuro e estreito sentindo seu velho coração pular para fora do peito. Podia sentir sua cabeça latejando. Escutou passos logo atrás dos seus e entrou no primeiro quarto que estava a sua frente, girando a chave na fechadura logo em seguida. Acendeu uma luz e sentou sem fôlego no chão, sentindo as gotas de suor traçarem um caminho ao longo de seu rosto. Notou que o silêncio voltara a imperar sobre o local e desconfiou. Temeroso, iluminou o cômodo em busca de algo para que pudesse se defender e encontrou um velho armário de madeira. Vasculhou entre as velharias ali presentes e encontrou uma arma empoeirada. De olhos brevemente fechados, rezou para que ali houvesse ao menos uma mísera bala e que esta lhe salvasse a vida.
Tão logo encontrou uma esperança, a menina começou a bater brutamente na porta.
-Me deixe entrar, velho maldito – gritou.
O padre fez um sinal de cruz e desejou que pudesse ver a luz do amanhã. Um pequeno buraco foi se abrindo na porta conforme Lilly a socava. Colou o rosto na fresta e deixou os olhos intensos e negros à mostra.
-Oi, padre. Você quer brincar? – questionou e começou a rir sadicamente.
O velho homem atirou pelo buraco, mas então a risada tornou-se mais alta e pavorosa. Um frio percorreu sua espinha dando-lhe um nó na garganta. Lilly dava gritos e batia mais e mais, até que conseguiu abrir um buraco suficientemente grande para que pudesse entrar. O homem, um tanto tonto e trêmulo, disparou mais três tiros pedindo pela misericórdia de seu Deus e não foi ouvido. Errou os três. A menina divertia-se tanto brincando de pega-pega ou esconde-esconde! Grudou as mãos em torno do pescoço do padre e apertou até sentir seus ossos serem esmagados. Então deixou seu corpo desfalecer no chão e pisou em sua cabeça adornada de fios brancos, fazendo seus miolos grudarem-se ao chão e paredes.
E então ela ria e ria. Ria como se fosse morrer. E apontando a arma contra a própria boca, morreu.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Ela está por todo lado


  Dezesseis anos ela tinha quando saiu de casa com a rebeldia nos olhos e inconsequência nas costas. Andou perdida pelas cruéis ruas da solidão mas não abaixava a cabeça para o perigo, de forma alguma. Aliás, acordou bem cedo num dia desses e comeu o perigo no café da manhã. Agora seu nome era encrenca e perigo era seu aperitivo favorito. Seu perfume era vodka e o batom era vermelho-cor-de-briga. Seu teto era o céu, sua cama era o agora e sua amante era a coragem. Pegue-a se puder, mas somente se puder.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Desabafo.


  Nem sempre é tão bom quanto se imagina.

  Ando sentindo falta de todo o verde do qual eu cresci ao redor. Onde eu morava havia uma floresta imensa da qual eu sinto falta de observar nas tardes em que o sol manchado de vermelho ilumina tudo e faz a gente hospedar a tristeza com um sorriso fraco no rosto. Agora, aqui no centro da cidade, tudo é frio e liso e cinza e sujo. O barulho dos carros e toda essa gente feia e morta que vaga por ai sem se dar conta de que já morreu, me faz dispensar o prazer que deveria ser olhar pela janela, como eu fazia nas manhãs pálidas e chuvosas do tempo em que eu podia me sentir no meio do mato embora não estivesse. O ar é grosso e pesado e nem de longe poderia ter o mesmo frescor e liberdade que tem o ar de lá. Falta o canto dos pássaros e a dança das árvores e os gritos do vento e a melodia da chuva. E essa porra toda, nem de longe pode ter toda a beleza que tinha o simples balançar do mato e das tímidas folhas das àrvores se despedindo do sol.
Tenho medo de ficar cinza e morta como esse lugar.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Fantasma materno.


  Meia noite, anunciava o relógio velho e cruel que se divertia do alto da parede branca, enquanto a menina de longos cabelos ruivos, agora com a pele mais branca que o luar, observava demoníacamente tediosa de cima da grande cama de madeira, o desespero de sua mãe. Os olhos cor de mel corriam por cada linha do rosto materno que fulgurava horror de todos os tamanhos e formas, e não cansava-se de rir assustadoramente com a voz então grave que certamente não lhe pertencia. Arrumou-se com os braços em torno das pernas sentada na cama, e revirava os olhos com desdém.
  - Filhinha, filhinha! - implorava a mãe com o pranto na voz e o medo nos olhos. - Por favor, filhinha, fale comigo! Diga a mamãe que você ainda está aí! - seus dedos entrelaçavam-se a um terço que era apertado por seu desespero.

  O padre rezava - aparentemente era inútil - algo em latim, em tom imperativo, mostrando-se determinado em resolver mais essa desventura que cruzava seu caminho, mas intimamente temia que ninguém saisse dali vivo. Talvez nossos medos sejam mais próximos da realidade do que pensamos.
  - Manda esse velho babão calar a boca e eu prometo que dou uma fodida com ele no canto mais escuro da igreja, bem na frente da cruz do seu Senhor - a menina zombou e lentamente foi guiando a lingua envolta por uma saliva gelatinosa para fora da boca de lábios pálidos e rachados. Via-se a língua dela alcançando um tamanho anormal. Movimentou-a irregularmente com um sorriso no rosto e engoliu de volta, soltando uma risada sarcástica de dar calafrios.
  - Cale-se, demônio! - gritou o padre.
  - Que foi? Prefere que seja uma orgia no meio da missa? - ela provocou e riu mais uma vez. Na pele podia-se observar cada uma de suas veias.
  A mãe derramou-se em lágrimas, temendo que não tivesse mais a filha em seus braços.
  
  Aquilo já estava cansativo. Depois de tanto tempo observando as vãs tentivas de ser expulso do corpo e do lugar que resolveu getilmente visitar, derramou-se em tédio. Aquelas paredes eram brancas demais, pensou passando pelo quarto os olhos cheios da intenção de se divertir. Aquela teias de aranhas nos cantos do teto pareciam-lhe um bom adorno, mas é claro que poderia ser melhorado. 
  - Psiiu - direcionou-se à mulher. - Quer sua menininha, quer?
  - O que você quer de mim? - a mãe transtornada e cheia de esperança estava atenta a cada movimento da criatura, disposta a ter de volta a filha.
  - Sabe aquele ursinho que ela deixa em cima da cama? Traga ele aqui, dê-me-o e eu prometo devolver sua filhinha - sorriu torto. - É tudo o que eu quero, eu juro - mentiu.
  - Não dê ouvidos à ela! - O padre exclamou em voz alta, temendo o pior. - É mentira! Não faça o que ela pede! Para quê diabos iria querer um urso? - alertou novamente.
  - Não ouça esse velho ridículo! Você quer sua menina, sim? Traga-me o urso!

  A pobre mulher não pensou duas vezes. Cegada pelo desejo de ter de volta sua cria, correu ao quarto para encontrar o tal urso. Cavar sua cova, é como chamo isso.
  - Eu te dei a chance de comer loucamente essa belezinha aqui, padre. Mas agora é tarde - sorriu.
  Repentinamente o corpo da menina debatia-se violentamente sobre a cama. O padre, desesperado, rezava novamente, porém agora tão rápido que as palavras pareciam embaralhar-se. Vendo que suas palavras de nada adiantavam, correu em direção a cama e tentou segurá-la.
  Parou. Apenas parou, serenamente - quanta inocência, padre! Olhou irônica para o velho confuso e enfiou-lhe os dedos nos olhos. Sentia o mais imenso prazer, era claramente visível em seu rosto. O padre berrava agonizando, tentando puxar o braço da menina. Tirou os dedos dos olhos dele, apoiou o corpo entre suas pernas e, segurando a cabeça do velho com ambas as mãos, girou-a agil e cruelmente, dando fim ao sofrimento.
  A mulher, estagnada na porta, deixara o urso cair diante da percepção de seu claro erro. Mas já era tarde, porque agora a porta estava bem fechada e a menina estava observando-a por trás, sádica, grudada ao teto.
  - Você a quer de volta? Vai abusar dela novamente, vai? - riu.
  A mulher permanecia sem reação.
  - Vai chupá-la e foder com ela à força, como faz nas suas noites de carência, hein, sua velha mal-comida? - provocou novamente.
  A mulher pensou em correr, mas antes que o pensamento fosse concluído, a menina já havia espremido sua cabeça com as mãos e pintado as paredes com seus miolos. Agora arrancava membro por membro do corpo mole da mãe de sua momentânea morada, deliciando-se, e jogava-os aleatóriamente pelo quarto, observando o sangue jorrar e esparramar-se obediente por toda extensão. Olhava as mãos cobertas de vermelho vivo e toda a pintura que havia feito pelo cômodo com satisfação.
  O relógio, lá do alto, continuava dançando indiferente à qualquer dor e a risada da criatura ecoava divertida e convidativa por toda a casa.
  - Vai querer de novo agora?



Para a 12ª Edição C&F do Projeto Créativité.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Eu já vi.


   Era iluminado. Verde, livre, amplo, mas desconhecido. Leve e deslumbrante. Eu estava sentada na beira de algo que parecia ser uma ponte, que ligava um lado ao outro daquele imenso rio de uma cor indefinida, puxada para o branco, que corria irreversível e misterioso, desaguando em algum lugar que eu talvez jamais fosse conhecer sem ter de me jogar nele. Talvez eu até já tivesse me jogado uma vez, há muito tempo. 
    Observava o céu de um azul hipnotizante, com nuvens frágeis que se aconchegavam distribuidas irregularmente, com uma curiosidade de outro mundo. Talvez - e apenas talvez - literalmente. Era realmente claro, iluminado. Não a clareza cegadora e dominante que tinha o Sol, uma claridade acolhedora que jorrava de uma fonte indefinida. 
  Então percebi que do alto de um dos lados da ponte, perfeitamente visível para quem, assim como eu, sentava-se ao meio, crianças que pareciam ter daquela luz que clareava o lugar, tornando as sutilmente brancas como o rio, vestidas em roupas soltas e simples, olhavam por um breve momento para baixo e depois jogavam-se pacificamente. Uma após a outra, perdiam-se naquele rio e eram levadas pela correnteza impiedosa como se tornassem-se parte dele. Gostaria de saber o que estavam pensando.
  Um rapaz que vestia-se com as mesmas roupas singelas que as crianças, também envolto daquela fraca luminosidade, sentou-se ao meu lado. Reparei que ele era tão branco como as nuvens e os olhos misturavam-se ao azul do céu.
  -São almas - disse-me com o olhar perdido ao longe.
  -Quem é você? - perguntei.
  -Sou seu guia - a voz esbanjava uma calma que soava tão eficiente quanto canções de ninar.
  
  No extremo da ponte, uma garotinha de pele alva, cabelos negros e lisos, de olhos verdes com esmeraldas, olhou-me. Retribui curiosa o olhar. Observou-me durante um curto tempo, porém intensamente. Direcionou o olhar ao rio, voltou-o para mim novamente e enfim, fechou os olhos. Jogou-se. Durante um breve momento tive a sensação de saber o que acontecia ali. 
  - O que faço aqui? - indaguei.
  - Você não sabe? - ele deu um sorriso torto.


  Acordei com o barulho de passos desesperados pela casa. Alguém chamava meu nome.
  - Gabriela! Gabriela!
  - O que é? - meus olhos ainda despejavam sono.
  - Sua tia foi internada, parto de risco e convulsão. Vi minha filha sair quase morta de casa - minha vó falava quase aos prantos.
  
  Não sabia bem o que pensar na hora. Preferi nem pensar. Talvez nem precisasse. 
  Meses depois, eu podia observar uma garotinha alva, de cabelos tão negros quanto a noite, olhos enormes cor de esmeralda, me olhando sempre curiosa e espantada. O olhar dela fixava-se em mim como se tivesse visto-me antes de ter nascido.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vamos brincar


   Agora a décima gota de suor do tamanho de uma uva esboçava um caminho sinuoso em sua testa, caindo por seu rosto infestado com a expressão do que há de pior no medo. O corpo trêmulo estava espremido num canto, com a cabeça entre as pernas que eram abraçadas pelos braços esguios, onde via-se claramente as veias seguindo seu curso, tão alva era a pele da menina. As bochechas ruborizadas eram a prova incontestável do pavor que lhe atormentava e que a fez deslocar-se desesperadamente pela casa. Ouvia claramente as risadas carregadas com maldade que saiam de suas bocas e desejou que eles apenas fizessem parte de um pesadelo novamente.
  Ficou ali por mais de meia hora, ouvindo passos e risadas insanas sem saber se realmente deveria esperar pelo melhor. Eles gritavam seu nome enquanto juravam-lhe as dores mais excruciantes e infindáveis tormentos. Queria poder contar com alguém que não fosse a si mesma naquele momento. Sabia que o que a esperava ia mais além do que a imaginação lhe permitia.
  Percebeu uma certa leveza no ambiente, a mesma que sentia quando eles iam embora. Os passos e vozes haviam cessado e apesar da insegurança não lhe permitir, resgatou a coragem mais profunda que dormia em si e aventurou-se pelos corredores fracamente iluminados da casa. Preparou psicológicamente as pernas delgadas para correrem o quanto pudessem caso trombasse com algum dos indesejados visitantes e foi. E o tempo caminhou tão normalmente quanto anormalmente acontecia. 
  A coloração alaranjada começou a se derramar pelo céu, marcando a transição para a noite e ela começou acalmar-se, mesmo sabendo que não deveria. Quando a escuridão finalmente enfeitou o teto do mundo e as estrelas se arranjaram confortáveis em seus devidos lugares, decidiu que era hora de se recuperar de um pesadelo e pôs-se a dormir.
  Tão logo pegou no sono, sentiu algo frio e úmido esfregar-se em suas pernas. Reuniu mais uma vez a coragem e arremessou o cobertor ao chão. Viu exatamente o que não queria ver. Uma garota magricela e cadavérica de cabelos negros e embaraçados grudava-se à suas pernas e a olhava fixamente.
  -Por que nos deixou? Você disse que ficaria com a gente. Você vai ficar, vai ficar! 
  Agora escalava-lhe as pernas e arrastava seu corpo pela metade com as tripas podres pela cama da menina, que num ato de desespero, sacudia-se tentando atirá-la ao chão. Desgostosa, a criatura abriu a boca em proporções que engoliriam uma cabeça, deu grito seco e agudo e cravou os dentes em suas pernas. Perfurou-lhe a carne e fez o sangue jorrar. A menina gritava, e agora já não sabia se deveria prender a atenção aos seus berros ou as risadas medonhas que preenchiam o quarto. Mãos saiam de todos os lados da cama, de todas as espessuras e texturas e prendiam-se ao seu corpo. Cravavam-lhe desde as unhas aos dentes mais afiados, pintavam as paredes do quarto com a mais rubra cor que espirrava do interior da menina e riam, riam como se sentassem-se sobre o trono do mundo.
  -Você prometeu. Prometeu que a gente ia brincar todos os dias. Prometeu que ficaria conosco. Traiu nossa confiança, deixou-nos. Mandou-nos embora e foi se divertir com essas crianças vivas medíocres. Você é nossa agora. Vai escutar nosso riso para sempre.



*Para o eixo temático do projeto blogueiros literários.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Boa noite.

   
  Encarei aqueles olhos castanhos enormes de dentro da lanchonete, no sábado à tarde pelo vidro embaçado pela chuva no que decidi ser a última vez. Eu tinha certeza que cada segundo que passava, continha um adeus. Um adeus que eu tentava dizer todos os dias.

  Paguei a conta e me lancei a caminhar pela chuva até em casa. Cada gota caía como uma bomba sobre minha cabeça, escorregando por minha face e delineando um caminho inseguro e sem volta, como parecia o meu. O vento cantarolava frio, mas qualquer coisa soava melhor que meus pensamentos gritando que enlouqueci. Ora, passaram-se já quatro meses desde sua morte, e sua frágil figura continuava a me observar sempre que eu menos esperava. E de tão imprevisível, previsível tornou-se.

  Chegando em casa, não fiz outra coisa primeiro que não fosse tomar um banho quente. E enquanto deixava a água escorrer por mim, não conseguia decidir-me entre o que era pior: o frenesi que se escondia por debaixo da chuva fria, enquanto pingava uníssona deturpando qualquer pensamento de escape que eu tinha ou o caos no qual minha mente estava inserida. Não conseguia me decidir até que abri os olhos e me deparei com a marca de suas mãozinhas no vapor d’água que se grudava ao box, como se fossem escorregando.
  Não, aquilo não estava acontecendo. Fechei os olhos e os esfreguei com as mãos. Abri. As marcas permaneceram ali, tão vívidas quanto todas as vezes em que Anne pôs-se a me observar durante a madrugada ou me assustar enquanto eu dobrava esquinas à noite. Eu poderia acordar daqui a alguns minutos e descobrir que era só mais um pesadelo causado pela mente de um pai inconformado, e que as sessões no psicólogo serviram de alguma coisa além de me aborrecer, não poderia? Não. Definitivamente não poderia.
  Não precisei pensar muito. Aliás, não poderia, queria ou conseguiria fazê-lo. Coloquei as primeiras roupas que achei e corri até a cozinha.

  — Lisa, faça as malas imediatamente. Vamos viajar.
  — Viajar para onde? Por quê? – Os olhos castanhos gigantes e infantis que deram origem àqueles que me perturbavam, encaravam-me perplexos e confusos.
  — É a Anne, Lisa! É a Anne! – eu disse quase gritando e gesticulando violentamente, sentindo que faltava pouco para que as lágrimas se formassem nos meus olhos.
  De novo, John? – ela agora me encarava decidindo-se entre a pena e a impaciência – Você não tem tomado seus remédios, não é mesmo? – dizia furiosa, com as mãos apoiadas à cintura – Eu disse à você que não deixasse o psicólogo, mas desde quando você me ouve? Quando você vai entender que a vida continua? Já se passaram quatro meses e  você continua tendo as mesmas alucinações e pesadelos frequentemente...

  Parei de ouvir a partir daí. Tudo o que eu ouvia agora era uma vozinha familiar, delicada e aguda agonizando, gritando com todo o desespero que o mundo pode abrigar, enquanto eu balançava minha cabeça pesada negativamente e assistia as coisas em movimentos extremamente lerdos. Até que Anne apareceu em minha frente: nua, pálida e cheia de hematomas roxos pelo corpo. A infelicidade transbordava-lhe os olhos e congelava o sangue que tentava inutilmente correr em minhas veias. Esticou as duas mãozinhas na minha direção.
  Veja, papai! Veja o que fazem comigo! Venha comigo, papai! Me proteja, eu não quero ficar só! - agora as veias começavam a exibir sua trajetória por seu corpo, escurecendo-se na pele cadavérica.
  Anne sussurrou agonia em meus ouvidos e assistiu enquanto meu corpo amolecido pelo domínio da mente perturbada perdia os sentidos e caía inconsciente sobre o chão da cozinha.





Continua

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A noite é uma criança.

   
   Eu resolvi dar uma voltinha em meio a estes insetos insignificantes. Sabe, meu doce lar não é dos piores, mas causar um pouquinho de pânico por aqui às vezes, é diversão garantida. Além de que, me sinto meio sozinho.
   Vai ser este verme aqui. Este mesmo. Não muito alto, cabelos claros, olhos escuros, barba mal feita e uma voz legal. Pronto para o serviço. Agora seu corpo é uma casca vazia e vai ser minha morada. Hora de arranjar uma puta.
   
   Entro no bar, olho ao redor e examino bem para achar meu futuro brinquedinho. Como sempre, chamando a atenção. Olhares mau encarados vindos das larvas mais barrigudas que algumas vadias têm o orgulho de chamar de "seu homem", se direcionam a mim. Posso ver o desejo sendo exalado desde o olhar até a respiração das mesmas. Na mesa de sinuca, o barulho das bolas se chocando causa um ruído maior aos meus ouvidos do que esses inúteis podem imaginar. O tilintar dos copos enquanto eles brindam bêbados aos berros por futilidades humanas, parece uma sinfonia desafinada. O cheiro da bebida sendo derramada dentro dos copos me faz sentir seu gosto tão bem que eu poderia jurar que sou eu quem está bebendo. Já o cheiro da carne humana deveria ser considerado poluição. Vermes nojentos. 
   Avisto a fêmea e sei que ela vai ser ótima para o trabalho. Um tanto menor que eu, morena, cabelos escuros compridos e enrolados. Olha aqueles peitos e aquela bunda, tão bem empinados quanto uma pipa.  Se não fosse tão necessária, eu a torturaria e a mataria depois de comê-la. Vadia imunda.
   Me aproximo, e aos seus olhos humanos ingênuos - diferentemente de seu corpo - sou um cara legal. Eu a cubro de elogios - tudo muito bem calculado e nas horas certas, é claro. Sou bom no que faço. Uso de toda a gentileza, a envolvo em minhas palavras, toco-lhe como se fosse uma rosa e depois de tanta conversa - eu diria "depois de tanto tédio" -, bem sei que ela acha que eu sou o cara que vai olhar para suas coxas e enxergar sua alma, que eu vou tirá-la da vida de imundisse luxuriosa e dos velhos asquerosos que passeiam por seus seios fartos e pele macia. Ela pensa que sou eu quem vai mudar sua vida. Pois bem, gracinha, vou mesmo.
  
   A levo para um quarto qualquer, em um motel qualquer. O primeiro que encontramos, na verdade. Depois de tanta enrolação - que ela chamaria de preeliminares -, ela está despida na minha frente. E logo sua carne será selada com o líquido maldito que ela terá a honra de receber de mim. 
  Seus punhos cerrados sobre o leçol, o ritmo descompassado de seu coração e os rangidos da cama denunciavam a veracidade das ultimas gotas de felicidade que escorriam por seu corpo. Enquanto ela sorria, atuava, sussurrava, cavalgava e cantarolava com seu prazer as mais belas melodias, mal sabia ela que estava entregando-me sua alma. Eu posso dar-lhe mais disto durante esta noite. O quanto você quiser. 
  Agora, estou impregnado por todo seu corpo. Serei a causa das suas noites de insônia, os sussurros que te acordarão no meio da madrugada e os gritos de horror que irão tirar seu sossêgo.
  
  Amanhã, quando ela acordar, seu ventre carregará sua maldição.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A doçura do demônio.

   
   Quatro paredes. Um cômodo branco sem portas e sem janelas. 
   Eu estava sentada em um sofá vermelho. Vermelho como sangue. Bonito, confortável. Grande demais para mim, pequeno demais para os nós em minha garganta. Me mantive fixada em um ponto: seus olhos escuros hipnotizantes, comendo a minha alma enquanto me observava. Rindo da minha insegurança. Seu rosto pálido, contrastando com os cabelos tão pretos e bagunçados, apoiado sobre uma mão. O cotovelo apoiado sobre o braço do sofá vermelho - vermelho como sangue - de frente para mim. As pernas cruzadas, inquietas, se divertiam tanto quanto ele enquanto eu apenas esperava.
   Meus olhos são do tamanho da lua, cor de terra. Cabelos cor de anoitecer, tão soltos e desleixados quanto eu. Geralmente ninguém enxerga o que há por trás destes olhos que se assemelham a um cometa entrando na atmosfera da Terra, mas isso não parecia funcionar com ele. Ele bebia o meu sangue antes mesmo de me tocar.
   A cada segundo que passou enquanto eu via sua face dançar, o medo se afogava naquele sofá tão vermelho quanto sangue. O meu sangue.
   Ele se levantou. Elegante, terrorista psicológico. Não era muito alto. Veio andando em minha direção lentamente.
   Eu me levantei. Fui andando receosa, de frente para ele, respondendo à seus passos. Em algum momento me encontraria com a parede.
     
   Nada melhor para quebrar o silêncio do que uma voz revestida de sadismo.
   -Qual o seu delírio mais real? Do que você é feita? - ele me olhava fixo, cheio de uma calma que gerava desespero. - O que você esconde aí dentro? O que há por trás dos muros que você cria ao seu redor?
   
    Nossos pés dançavam ao mesmo ritmo, enquanto em meu peito, o coração fazia o inverso. Seus passos me causavam um terror exuberante. E a loucura é poética.

   Ele estava cada vez mais perto. Compassadamente.
   -Diga-me, diga-me: do que você tem medo? O que sustenta o mundo que há dentro das suas paredes?
  Ele parou.
  -Você ama? - riu e continuou a andar.
   
   Eu senti a parede se chocando contra o medo que me tomava. O barulho do meu último suspiro. 
   Ele se aproximou. Abaixou o rosto, próximo ao meu. Olhou fundo em meus olhos. Um sussurro.
   -Qual é o seu desejo mais reprimido? - sorriu.

  E então suas mãos estavam cada uma em um lado da minha cabeça, apertando-a com tanta força que eu achei que ela fosse explodir. Meus pés já não sentiam o chão. Nenhum grito desesperado, nenhum pedido de compaixão - horror, apenas. E explodiu.
   E as paredes tão brancas ficaram vermelhas. Vermelhas como sangue. Meu corpo desfalecido sentia que ele havia me transtornado ao ponto de me fazer perder a cabeça. Talvez meus miolos grudados por toda sua extensão fossem um belo adorno, combinando com sua risada. Ria como se não houvesse amanhã.


   
  

domingo, 9 de janeiro de 2011

A morte é frágil.





Me peguei já andando em meio à uma rua conhecida, com gente desconhecida, no que parecia ser a noite no meio da noite. Eu estava indo para onde precisava ir, embora não soubesse bem porque e nem onde. Talvez apenas não soubesse.
  Eu perdi metade do caminho porque apenas a metade que eu havia caminhado tinha sido construída. Talvez este caminho fosse só uma metade.
  Cheguei. Era uma cabana velha de madeira e mal arrumada. Pressa e medo, é tudo que havia naquele lugar e naqueles rostos desconhecidos tão conhecidos. Ela iria chegar até mim a qualquer momento. Mas antes que chegasse até nós, estaríamos bem longe. Seja na estrada ou no inferno, estaríamos longe, de qualquer forma e através de qualquer caminho.
  Ela estava ali mesmo antes de chegar. Ela estava onde quer que eu estivesse, porque eu via seus olhinhos tão mais azuis que o céu, famintos por mim, em qualquer lugar. 
  Partir é o que estava escrito na mente de todos, é o que saía da respiração de cada um deles.
  O único jeito era ficar lúcida ou acordar. Em algum lugar eu sabia disso, mas não me recordaria até que acabasse.
  Entramos no carro. Seguimos sem olhar para trás, na velocidade mais alta que um carro poderia correr dentro da minha cabeça. Eu ainda não entendia bem porque precisava fugir, porque eu sabia de tudo aquilo mesmo sem saber de nada. Eu precisava de um motivo além do medo para estar fugindo de um ponto para outro dentro da minha mente.
  Luzes alaranjadas, barulho de outros carros. Barulhos não tão atormentados quanto nós. Era um túnel.
  O barulho da morte se chocando contra nós. Batemos antes mesmo de perder o controle. Talvez nunca tivessemos tido o controle.
  Ela estava ao meu lado dentro do carro. Ela e todos os cádaveres dos que me acompanhavam. Seus cabelos loiros encaracolados e sua face angelical, que não seria tão bem portadas por qualquer outra criança no mundo, se voltavam para mim. 
  "Se você não for minha, não será de mais ninguém."
   
  Dormi.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dance!

    
    Eu não sabia exatamente onde estava. Eu apenas estava.
    Era noite, céu estrelado e vento frio. Casas velhas, pequenas. Paredes sujas, alguns buracos. Uma delas tinha um quintal enorme, de terra, mal cuidado e sujo, com bananeiras e outras àrvores. Estava tudo escuro. Eu estava só.
    Algo me impeliu a entrar. Talvez medo, talvez curiosidade, não sei. Mas eu entrei. Entrei devagar e cuidadosamente. Estava abandonada. Largada, suja. Coisas no chão, pedaços de tijolos, sujeira dos buracos na parede. Portas de madeira, algumas caindo aos pedaços, outras apenas os pedaços. Escuro.
   Adentrei um dos quartos. Mais sujeira, mais buracos, mais escuro. Velas acesas clareando fraco. 
   Não havia ninguém, supostamente. Não deveria haver velas. Não acesas, pelo menos.
   Passos. Sensações.
   Uma velha aparece à porta e ela diz que eu não posso sair. Ela diz também, que eles me querem ali. Que eles me querem.
   Pavor. Frio percorrendo a espinha. A espinha quase saindo fora do corpo. 
   Um riso velho e sombrio. Amarelado, sem alguns dentes. Divertidamente sombrio. Me pergunto se a espinha ainda estava ali. 
   Corri. O riso me acompanhou, ao contrário da velha, estagnada com sua cara de maracujá murcho, no mesmo lugar. Velha maldita!
   É engraçado como o pavor tornou a casa tão simples e tão pequena em um enorme labirinto. É engraçado como nossa cabeça se torna um enorme labirinto às vezes. Dando voltas e voltas dentro de si mesmo, querendo encontrar a saida. Querendo fugir de algo que está impregnado em você, assim como as mãos e marcas deles estão impregnadas em mim.
   Eu podia sentir a podridão de suas almas dançando pela casa. Dance, minha querida, dance!
   A velha continuava rindo. Convidei o frio a entrar, era assustador demais sozinha. A saída estava logo à frente, embora nunca houvesse tido saída.
   
   Do que você tem medo?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ofélia.


Oh, pobre Ofélia!
No meio da noite, mãos puxavam-lhe as pernas
Marcavam-lhe com arranhões as costas
Tocavam-na de maneira voraz
Sugavam-lhe as forças como quem não se satisfaz

A doce menina se desesperava
Sentia o toque, porém nada enxergava
Em pensamento se perguntava
O nome de quem por alguns minutos, secretamente a amava
Sempre voltando, como quem não esconde que gosta
E com sangue nas paredes
Ele lhe deu a resposta

Ofélia gritava, agoniava e chorava
Num surto calava-se e só fazia esperar
E chegando ao fim, mesmo ela, custava a acreditar
Que em meio à noite vieram lhe visitar
E o ato a transtornava ao mesmo que tempo que a viciava


Ah, pobre Ofélia!
Um belo dia, foi encontrada
Morta e ensanguentada, com as pernas marcadas
Cortes enfeitavam-lhe o corpo
E a loucura adornava sua alma
Apaixonou-se por seu visitante secreto
E o medo que ele lhe proporcionava

Pobre, pobre Ofélia!
Tão jovem, tão bela
Mais uma vítima do amor platônico.