terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Lullaby


Abre a janela, Zé. Deixa o dia clarear.
Deixa o Sol manchar de vermelho toda essa tua insegurança.
Acende teu cigarro, Zé. Deixa o medo se esvair a cada trago.
Senta na porra da tua cadeira e deixa o tempo voar,
porque a pressa não cabe na poesia e não faz atenuar a dor dos poetas
Olha o horizonte, Zé. Cura tuas chagas com a leveza das árvores
Curva o teu pensamento como fazem os bambus.
Vê se sofre, Zé, porque a tristeza tem essa mania louca
de carregar uma dose de doçura.
Abre a porta, deixa a inércia passar
A casa é grande, mas não há lugar para ela
e suas histórias feias de homens que viveram loucos
e suas mentiras aveludadas sobre poetas que morreram felizes.
Isso não existe, Zé.
Atende o telefone, Zé! A chuva não gosta de esperar.
O céu acinzentado soluça como uma criança, basta saber ouvir.
A morte está aqui, disse que gosta de brincar.
Você gosta de brincar, Zé?
Zé?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Enjoy the silence


 O mundo lá fora tá explodindo e eu tô aqui, trancado no meu quarto. Já falei como o céu está escuro? Deve ser por conta de todos esses urubus voando pra lá e pra cá com carcaças de tigres brancos pendurados em seus bicos. A janela tá emperrada, não vejo a luz do sol há dias. Ouvi no noticiario que ele vai se internar numa clínica de reabilitação, é viciado em cocaína. Eu bem que desconfiei.
 Há dois dias o meu cachorro não para de latir. Ele morreu na semana passada de ataque epiléptico. Pobrezinho.
 Esse quarto tá uma bagunça. Minha mãe reclama todos os dias, socando a parede e desvanecendo-se pausadamente logo após. É uma pena que esteja morta também.
 Tem um elefante no armário e um demônio embaixo da cama. Os convidei para tomar café, aqui é tudo muito quieto e solitário. Porque não podemos fazer dessa escuridão nossa casa?
 Quando acordar amanhã à noite, quero estar morto. Enquanto amanhã não chega, vou observar e analisar a forma como tenho me tornado uma úlcera dentro de mim mesmo, minuto após minuto.

 Já falei como o céu tá escuro hoje?