quinta-feira, 31 de março de 2011

Desabafo.


  Nem sempre é tão bom quanto se imagina.

  Ando sentindo falta de todo o verde do qual eu cresci ao redor. Onde eu morava havia uma floresta imensa da qual eu sinto falta de observar nas tardes em que o sol manchado de vermelho ilumina tudo e faz a gente hospedar a tristeza com um sorriso fraco no rosto. Agora, aqui no centro da cidade, tudo é frio e liso e cinza e sujo. O barulho dos carros e toda essa gente feia e morta que vaga por ai sem se dar conta de que já morreu, me faz dispensar o prazer que deveria ser olhar pela janela, como eu fazia nas manhãs pálidas e chuvosas do tempo em que eu podia me sentir no meio do mato embora não estivesse. O ar é grosso e pesado e nem de longe poderia ter o mesmo frescor e liberdade que tem o ar de lá. Falta o canto dos pássaros e a dança das árvores e os gritos do vento e a melodia da chuva. E essa porra toda, nem de longe pode ter toda a beleza que tinha o simples balançar do mato e das tímidas folhas das àrvores se despedindo do sol.
Tenho medo de ficar cinza e morta como esse lugar.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Fantasma materno.


  Meia noite, anunciava o relógio velho e cruel que se divertia do alto da parede branca, enquanto a menina de longos cabelos ruivos, agora com a pele mais branca que o luar, observava demoníacamente tediosa de cima da grande cama de madeira, o desespero de sua mãe. Os olhos cor de mel corriam por cada linha do rosto materno que fulgurava horror de todos os tamanhos e formas, e não cansava-se de rir assustadoramente com a voz então grave que certamente não lhe pertencia. Arrumou-se com os braços em torno das pernas sentada na cama, e revirava os olhos com desdém.
  - Filhinha, filhinha! - implorava a mãe com o pranto na voz e o medo nos olhos. - Por favor, filhinha, fale comigo! Diga a mamãe que você ainda está aí! - seus dedos entrelaçavam-se a um terço que era apertado por seu desespero.

  O padre rezava - aparentemente era inútil - algo em latim, em tom imperativo, mostrando-se determinado em resolver mais essa desventura que cruzava seu caminho, mas intimamente temia que ninguém saisse dali vivo. Talvez nossos medos sejam mais próximos da realidade do que pensamos.
  - Manda esse velho babão calar a boca e eu prometo que dou uma fodida com ele no canto mais escuro da igreja, bem na frente da cruz do seu Senhor - a menina zombou e lentamente foi guiando a lingua envolta por uma saliva gelatinosa para fora da boca de lábios pálidos e rachados. Via-se a língua dela alcançando um tamanho anormal. Movimentou-a irregularmente com um sorriso no rosto e engoliu de volta, soltando uma risada sarcástica de dar calafrios.
  - Cale-se, demônio! - gritou o padre.
  - Que foi? Prefere que seja uma orgia no meio da missa? - ela provocou e riu mais uma vez. Na pele podia-se observar cada uma de suas veias.
  A mãe derramou-se em lágrimas, temendo que não tivesse mais a filha em seus braços.
  
  Aquilo já estava cansativo. Depois de tanto tempo observando as vãs tentivas de ser expulso do corpo e do lugar que resolveu getilmente visitar, derramou-se em tédio. Aquelas paredes eram brancas demais, pensou passando pelo quarto os olhos cheios da intenção de se divertir. Aquela teias de aranhas nos cantos do teto pareciam-lhe um bom adorno, mas é claro que poderia ser melhorado. 
  - Psiiu - direcionou-se à mulher. - Quer sua menininha, quer?
  - O que você quer de mim? - a mãe transtornada e cheia de esperança estava atenta a cada movimento da criatura, disposta a ter de volta a filha.
  - Sabe aquele ursinho que ela deixa em cima da cama? Traga ele aqui, dê-me-o e eu prometo devolver sua filhinha - sorriu torto. - É tudo o que eu quero, eu juro - mentiu.
  - Não dê ouvidos à ela! - O padre exclamou em voz alta, temendo o pior. - É mentira! Não faça o que ela pede! Para quê diabos iria querer um urso? - alertou novamente.
  - Não ouça esse velho ridículo! Você quer sua menina, sim? Traga-me o urso!

  A pobre mulher não pensou duas vezes. Cegada pelo desejo de ter de volta sua cria, correu ao quarto para encontrar o tal urso. Cavar sua cova, é como chamo isso.
  - Eu te dei a chance de comer loucamente essa belezinha aqui, padre. Mas agora é tarde - sorriu.
  Repentinamente o corpo da menina debatia-se violentamente sobre a cama. O padre, desesperado, rezava novamente, porém agora tão rápido que as palavras pareciam embaralhar-se. Vendo que suas palavras de nada adiantavam, correu em direção a cama e tentou segurá-la.
  Parou. Apenas parou, serenamente - quanta inocência, padre! Olhou irônica para o velho confuso e enfiou-lhe os dedos nos olhos. Sentia o mais imenso prazer, era claramente visível em seu rosto. O padre berrava agonizando, tentando puxar o braço da menina. Tirou os dedos dos olhos dele, apoiou o corpo entre suas pernas e, segurando a cabeça do velho com ambas as mãos, girou-a agil e cruelmente, dando fim ao sofrimento.
  A mulher, estagnada na porta, deixara o urso cair diante da percepção de seu claro erro. Mas já era tarde, porque agora a porta estava bem fechada e a menina estava observando-a por trás, sádica, grudada ao teto.
  - Você a quer de volta? Vai abusar dela novamente, vai? - riu.
  A mulher permanecia sem reação.
  - Vai chupá-la e foder com ela à força, como faz nas suas noites de carência, hein, sua velha mal-comida? - provocou novamente.
  A mulher pensou em correr, mas antes que o pensamento fosse concluído, a menina já havia espremido sua cabeça com as mãos e pintado as paredes com seus miolos. Agora arrancava membro por membro do corpo mole da mãe de sua momentânea morada, deliciando-se, e jogava-os aleatóriamente pelo quarto, observando o sangue jorrar e esparramar-se obediente por toda extensão. Olhava as mãos cobertas de vermelho vivo e toda a pintura que havia feito pelo cômodo com satisfação.
  O relógio, lá do alto, continuava dançando indiferente à qualquer dor e a risada da criatura ecoava divertida e convidativa por toda a casa.
  - Vai querer de novo agora?



Para a 12ª Edição C&F do Projeto Créativité.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Eu já vi.


   Era iluminado. Verde, livre, amplo, mas desconhecido. Leve e deslumbrante. Eu estava sentada na beira de algo que parecia ser uma ponte, que ligava um lado ao outro daquele imenso rio de uma cor indefinida, puxada para o branco, que corria irreversível e misterioso, desaguando em algum lugar que eu talvez jamais fosse conhecer sem ter de me jogar nele. Talvez eu até já tivesse me jogado uma vez, há muito tempo. 
    Observava o céu de um azul hipnotizante, com nuvens frágeis que se aconchegavam distribuidas irregularmente, com uma curiosidade de outro mundo. Talvez - e apenas talvez - literalmente. Era realmente claro, iluminado. Não a clareza cegadora e dominante que tinha o Sol, uma claridade acolhedora que jorrava de uma fonte indefinida. 
  Então percebi que do alto de um dos lados da ponte, perfeitamente visível para quem, assim como eu, sentava-se ao meio, crianças que pareciam ter daquela luz que clareava o lugar, tornando as sutilmente brancas como o rio, vestidas em roupas soltas e simples, olhavam por um breve momento para baixo e depois jogavam-se pacificamente. Uma após a outra, perdiam-se naquele rio e eram levadas pela correnteza impiedosa como se tornassem-se parte dele. Gostaria de saber o que estavam pensando.
  Um rapaz que vestia-se com as mesmas roupas singelas que as crianças, também envolto daquela fraca luminosidade, sentou-se ao meu lado. Reparei que ele era tão branco como as nuvens e os olhos misturavam-se ao azul do céu.
  -São almas - disse-me com o olhar perdido ao longe.
  -Quem é você? - perguntei.
  -Sou seu guia - a voz esbanjava uma calma que soava tão eficiente quanto canções de ninar.
  
  No extremo da ponte, uma garotinha de pele alva, cabelos negros e lisos, de olhos verdes com esmeraldas, olhou-me. Retribui curiosa o olhar. Observou-me durante um curto tempo, porém intensamente. Direcionou o olhar ao rio, voltou-o para mim novamente e enfim, fechou os olhos. Jogou-se. Durante um breve momento tive a sensação de saber o que acontecia ali. 
  - O que faço aqui? - indaguei.
  - Você não sabe? - ele deu um sorriso torto.


  Acordei com o barulho de passos desesperados pela casa. Alguém chamava meu nome.
  - Gabriela! Gabriela!
  - O que é? - meus olhos ainda despejavam sono.
  - Sua tia foi internada, parto de risco e convulsão. Vi minha filha sair quase morta de casa - minha vó falava quase aos prantos.
  
  Não sabia bem o que pensar na hora. Preferi nem pensar. Talvez nem precisasse. 
  Meses depois, eu podia observar uma garotinha alva, de cabelos tão negros quanto a noite, olhos enormes cor de esmeralda, me olhando sempre curiosa e espantada. O olhar dela fixava-se em mim como se tivesse visto-me antes de ter nascido.