terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Em outra madrugada qualquer

 O homem mascarado aparece nesses dias de chuva inquieta e se convida a entrar. E atravessa a porta da realidade tocando suas canções oníricas frias, trazendo junto de si o vento tão mentiroso. Ele dança com a morte e recita seus poemas favoritos. E corta cabeças, e corta gargantas, e faz sangue jorrar e escarra dúvidas em mim. Como fugir do homem mascarado se ele sempre sabe onde estou? Como vencer o homem mascarado se seus dedos finos e frios estão sempre percorrendo a minha insegurança?
 Sem deixar cair a máscara, me pega pelas mãos e me  faz dançar sua valsa acinzentada. Ele sorri de lá do fundo de sua alma vazia como se tivesse motivos para tal e me guia rumo a uma incerteza quase infantil. E então ele se vai pela manhã, deixando um rastro de sonho no ar.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Enjoy the silence


 O mundo lá fora tá explodindo e eu tô aqui, trancado no meu quarto. Já falei como o céu está escuro? Deve ser por conta de todos esses urubus voando pra lá e pra cá com carcaças de tigres brancos pendurados em seus bicos. A janela tá emperrada, não vejo a luz do sol há dias. Ouvi no noticiario que ele vai se internar numa clínica de reabilitação, é viciado em cocaína. Eu bem que desconfiei.
 Há dois dias o meu cachorro não para de latir. Ele morreu na semana passada de ataque epiléptico. Pobrezinho.
 Esse quarto tá uma bagunça. Minha mãe reclama todos os dias, socando a parede e desvanecendo-se pausadamente logo após. É uma pena que esteja morta também.
 Tem um elefante no armário e um demônio embaixo da cama. Os convidei para tomar café, aqui é tudo muito quieto e solitário. Porque não podemos fazer dessa escuridão nossa casa?
 Quando acordar amanhã à noite, quero estar morto. Enquanto amanhã não chega, vou observar e analisar a forma como tenho me tornado uma úlcera dentro de mim mesmo, minuto após minuto.

 Já falei como o céu tá escuro hoje?

quinta-feira, 31 de março de 2011

Desabafo.


  Nem sempre é tão bom quanto se imagina.

  Ando sentindo falta de todo o verde do qual eu cresci ao redor. Onde eu morava havia uma floresta imensa da qual eu sinto falta de observar nas tardes em que o sol manchado de vermelho ilumina tudo e faz a gente hospedar a tristeza com um sorriso fraco no rosto. Agora, aqui no centro da cidade, tudo é frio e liso e cinza e sujo. O barulho dos carros e toda essa gente feia e morta que vaga por ai sem se dar conta de que já morreu, me faz dispensar o prazer que deveria ser olhar pela janela, como eu fazia nas manhãs pálidas e chuvosas do tempo em que eu podia me sentir no meio do mato embora não estivesse. O ar é grosso e pesado e nem de longe poderia ter o mesmo frescor e liberdade que tem o ar de lá. Falta o canto dos pássaros e a dança das árvores e os gritos do vento e a melodia da chuva. E essa porra toda, nem de longe pode ter toda a beleza que tinha o simples balançar do mato e das tímidas folhas das àrvores se despedindo do sol.
Tenho medo de ficar cinza e morta como esse lugar.